quinta-feira, 15 de março de 2018

Não percebemos a revolução da máquinas


Em 1865 Júlio Verne lança o que em minha opinião foi o primeiro livro de ficção cientifica da história, Da Terra a Lua, narrando uma incrível viagem ao nosso satélite natural, influenciando pesquisadores do século posterior a se empenharem para tornar realidade os sonhos de Verne, talvez sem perceber, estava dando origem a um novo gênero literário que dominaria durante bom tempo a mente e o gosto literário das pessoas.

Em 1984 estreava nos EUA o clássico O exterminador do futuro, no qual um ciborgue vinha do futuro para matar um garoto que criaria um computador tão potente e inteligente que acabaria por dominar o mundo, povoando-o com milhões de outras máquinas que escravizaria a humanidade; em 1999 é lançado o primeiro filme da trilogia Matrix, no qual o mundo não passa de uma simulação virtual para distrair o seres humanos, enquanto estes permanecem em uma espécie de coma induzido servindo de combustível para aquelas.

Para muitos a ficção cientifica não passa de uma literatura fantástica, de cunho sensacionalista, destinada a adolescentes, mas tal visão pertence às mentes pequenas, pois em muitos momentos esse gênero literário já se provou como fonte de inspiração, para o desenvolvimento de vários artefatos tecnológicos, tais como os aparelhos celulares, as vídeo conferências entre outros, Isaac Asimov em sua vasta obra prova o contrário, quando determina quais serão as leis da robótica, leis que hoje estão em prática na pesquisa e desenvolvimento de projetos de inteligência artificial; como já disse o vocalista da Nação Zumbi, Jorge do Peixe: "a ficção cientifica é nossa literatura de ideias", e mais uma vez, esta acertou no que propôs, mas pelo menos por enquanto, sem dizimação da raça humana. 

A muito se fala a respeito do tema, dominação das máquinas, e do medo que o mesmo gera nos seres humanos, tememos o futuro, por não saber o que nos aguarda, mas é possível que seja também pelo que fazemos do presente. O que quase ninguém percebe é que o futuro já chegou e que já somos dominados pelas máquinas, estamos alienados em um mundo virtual, a distopia já começou.

Quantos de nós ao acordar abrimos uma janela e comtemplamos o dia que nasce? Quantos de nós aproveitamos dos primeiros raios de sol para fazer uma caminhada ou correr? Claro que existem pessoas que o façam, mas são minoria já que principalmente nas grandes cidades, as pessoas já acordam conectadas, para muitos a primeira atitude do dia é tomar o smartfone ou tablete nas mãos e conectar-se a rede para ver o que ocorre no mundo por meio das redes sociais, ou simplesmente para postar que acordou, tirar uma self escovando os dentes ou indo para o banho (ambas, atitudes de péssimo gosto), enquanto ignoramos a pessoa que acorda ao nosso lado, não nos dignamos nem mesmo a desejar um bom dia.

As máquinas tem se tornado cada vez mais inteligentes e se mostrado cada vez mais necessárias, é culpa dos aparatos tecnológicos então nossa alienação? Não, pois por mais “espertas” que se mostrem, ainda são apenas “brinquedos” tecnológicos, já seus fabricantes tem uma grande parcela de culpa. O trabalho de inovar cada vez mais rápido os aparelhos eletrônicos, torna-los cada dia mais interessantes, de lançar campanhas publicitárias emocionantes que faça com que o espectador, leitor ou ouvinte sinta-se compelido a comprar é a especialidade das empresas que competindo entre si no mercado capitalista estimulam o consumismo em pessoas avidas por participar de grupos; por outro lado, os consumidores são também grandes responsáveis, ávidos  pelo reconhecimento público de sua inserção no  modus vivendi da moda, os leva a consumir desenfreadamente todo tipo de aparatos tecnológicos, dos quais muitas vezes não precisam tanto, mas sem os quais não se veem vivendo, em suma, não são vítimas, mas sim cúmplices, de uma invasão e dominação que acontece de forma acelerada.

Não culpo os avanços tecnológicos, principalmente por ser um usuário destes, afinal não escrevo estas linhas em uma máquina datilografa; culpo os seres humanos e sua incontrolável sede de pertencer, pois não há outro motivo para desenfreado consumismo que não seja o medo de “estar por fora”, é por tanto medo que passamos quase que 24 horas do dia conectados com gente que está a quilômetros de distância de nós enquanto não percebemos quem está ao nosso lado, fazemos isso porquê, afinal, todos fazem, e se todos fazem, “eu também o tenho que fazer”.

Além do consumismo, outro fator é preponderante nesta situação, a sede e a fome de informação, informação sem o menor conteúdo, sem a menor importância, a necessidade de fugir da realidade, apoiando-se em vidas virtuais repletas de glamour e exuberância, é em busca desta dose diária de ópio que não largamos os smartphones, tablets  e afins, seguindo estrelas da TV, cinema, da música ou mesmo celebres desconhecidos, buscando tirar uma fatia de suas vidas tão invejáveis antes de retornar para nossas vidas tão desinteressantes, tão comuns, dessa forma vamos nos entregando, a app’s  que se propõem a solucionar praticamente todos os problemas que permeiam nosso cotidiano, nos indicam rotas a seguir, a hora de comer, como dormir, quanta água beber, quando fazer exercícios, e assim, cada vez mais nos afundamos em uma realidade virtual, nos induzimos a um coma acordado, nossos olhos enxergam muito mais as telas mínimas de nossos aparelhos portáteis que a imensidão que nos cerca, percebemos muito mais facilmente os problemas no funcionamento dos aplicativos e redes sociais, na falta de cobertura wi-fi, no fim dos dados móveis, que os problemas de nossa sociedade, segregamos nossas comunidades, entre aqueles que possuem e não possuem acesso às tecnologias.

A dominação não veio forçada, foi oferecida e aceitamos de bom grado, não foi através das armas, mas sim com convites requintados, aos quais nos dobramos. Não é muito diferente do que fazem os países imperialistas com os de 3° mundo, lindas palavras, belas propostas, até que quando são aceitas, invadem a vida dos mesmos de forma violenta, e quando por fim nos damos conta do que aconteceu, é tarde demais para voltar atrás.

A tecnologia veio para nos auxiliar, para tornar mais fácil nossa vida, mas nosso comodismo nos tornou dependentes da mesma, escravos presos por grilhões invisíveis de extensão sem limites, somos monitorados onde quer que estejamos, e o pior, por nossa própria escolha. Não precisamos temer o futuro,  a revolução das máquinas já começou, a mais ou menos duas décadas e meia, nós simplesmente estávamos ocupados de mais nos maravilhando com ela para perceber.

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