quarta-feira, 21 de março de 2018

Para não dizer que não falei de Marielle



Sinceramente, não tinha a menor intenção de escrever nada a respeito do caso Marielle, pelo simples fato de me enojar a prática de buscar audiência, plateia, através da exploração da desgraça alheia; mas chega um momento em que a necessidade de falar é muito maior que nossa capacidade de nos manter em silêncio.

Uma certa vez, em uma entrevista, questionaram o geografo e intelectual Milton Santos se era difícil ser um intelectual negro no Brasil, sua reposta foi: “é difícil ser intelectual no brasil, e é difícil ser negro no Brasil.”, esta resposta pode ser expandida, o que não é difícil para o negro, para o pobre, para o periférico favelado oriundo de escola pública no Brasil? Marielle foi mais uma vítima de uma da violência que se instala em nosso país, uma vitima que durante toda sua vida teve que lidar com todas as dificuldades de ser negro neste país, as dificuldades que passam todos os negros que não acomodam-se, que não obedecem a regra de que devem permanecer na pobreza, no analfabetismo e de preferência no anonimato. Marielle foi mulher, negra e política em um apaís onde em pleno século XXI, impera o pensamento retrogrado de que lugar de mulher é na cozinha, ou que, a única forma aceitável de uma mulher chamar atenção é por meio da exposição de seu corpo seminu ou nu, em programas de TV, em um país onde é mais aceitável que o negro que aparece na TV, seja o motorista da madame, a empregada da socialigth, ou mesmo o criminoso do núcleo favelado dos folhetins diários; Marielle era uma pedra no sapato, um incomodo para muitos acomodados que anseiam por manter tal estado de coisas, Marielle precisava parar de incomodar.

O racismo, o preconceito, a discriminação, são presentes em nosso país em praticamente todos os âmbitos, profissionais, familiares, religiosos...por que devemos negar? Seja com relação a etnia, a sexualidade, a classe social, somos uma nação segregada em tantos aspectos que seria muito cansativo enumera-los aqui, mas o caso de Marielle não reflete apenas o racismo, ou o preconceito, ou a discriminação, sua execução trás a tona o tipo de país em que nos transformamos no últimos 30 anos, um país de ódio, de segregação, não de um povo estrangeiro, mas do próprio povo brasileiro.

Muitos foram aqueles que tentaram denegrir a imagem da quinta vereadora mais votada no país após seu falecimento, associaram-na a traficantes, envolveram-na com o crime organizado, comemoraram sua morte, por que? Por ser negra? Por não se deixar comprar pela corrupção que devora nossa democracia? Por lutar pelos direitos dos homens e mulheres negros desse país? Ou pura e simplesmente pelo ódio e rancor que brota cada vez mais fundo no coração dos indivíduos desse país contra tudo aquilo que não condiz com suas ideologias, doutrina e convicções? Marielle foi executada de forma brutal, o que demonstra que ainda hoje estamos sob o domínio das oligarquias, sob o domínio da selvageria institucionalizada daqueles que são acobertados por cargos de poder, por influências nos mais altos escalões do comando nacional, dos que têm em suas mãos, todas as facilidades que o dinheiro sujo pode comprar.

Marielle não foi uma mártir, pois os mártires, desejam a morte, buscam-na, enquanto aquela buscava a vida, uma vida decente para os brasileiros descamisados, sem voz, uma vida construtiva e cooperativa entre brasileiros, independente de sua origem étnica, sexo, religião, era alguém que queria viver para à seu modo contribuir para uma política ética, para e pelo povo brasileiro, e a exemplo de tantos outros foi tirada do caminho com a ferocidade e rapidez de sempre, foi como Ulisses Guimarães, como Teori Zavasck, como Marcos Freire entre tantos outros que ameaçavam o conforto ilícito de uma minoria brasileira habituada a enriquecer por intermédio de uma política que não passa de um jogo de cartas marcadas, onde quando um novo jogador ameaça ganhar, rapidamente é eliminado; e é muito possível, que assim como os a cima citados, a morte de Marielle torne-se mais um enigma insolúvel na história deste país.

O caso Marielle vai muito além de um caso de racismo, vai muito além da morte de uma mulher negra, que como seus detratores disseram, ocorrem centenas todos os dias em todo o território nacional (e ninguém se importa), o caso Marielle representa a materialização da podridão política que tem se desenvolvido em nosso país, representa a prática de uma tese política da qual acreditávamos termos nos livrado, a eliminação à força de todo aquele que se opõe a uma força dominante e prevalecente. Mas é chegado o momento de exigir mudanças, não apenas mudanças políticas ou partidárias através do voto, mas mudanças éticas através de nossas ações enquanto pessoas, não podemos permitir que tais casos tornem-se rotina, pois é o que acontecerá, se não houverem cobranças de esclarecimento e punição dos culpados, os coronéis e seus capangas finalmente abandonarão sua pose discreta e reassumirão a velha personagem, autoritária e violenta dos anos 30, acompanhados claro, de seus capangas.

não podemos permitir que seu esforço passe em branco, assim como tantos outros lideres, Marielle Franco doou sua vida (não por meio de sua morte, mas por meio de sua luta) à uma luta por milhares de brasileiros humilhados e esquecidos, como Martin Luther King, como Angela Davis, como Malcolm X, Marielle foi e será sempre um símbolo de luta, mas os símbolos não se mantem de pé sozinhos, é necessário que nós, façamos o que for preciso para sustenta-los. vamos à luta!

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