segunda-feira, 24 de dezembro de 2018


UMA CONVERSA SOBRE A IMIGRAÇÃO




Nos últimos anos o tema imigração tornou-se recorrente, sendo frequentemente abordado, seja em debates eleitorais, reuniões da ONU ou em mesas de bar e transportes coletivos, muitos olham com piedade para aqueles que buscam uma segunda chance em um país estrangeiro, enquanto outros tantos condenam sua inserção em seus países, realizando mesmo mobilizações para que seja evitada sua entrada, é dessa forma que duas das eleições (talvez) mais polêmicas do inicio do século XXI se deram, através da promessa de “tolerância zero” aos imigrantes ilegais e no desenvolvimento de políticas que dificultem a entrada de imigrantes.
Porém, os grupos e indivíduos que defendem tais políticas, ignoram alguns fatos bastante interessantes, que nos levam a questionar, se realmente, há uma razão, para odiarmos imigrantes.

A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA POBRE, CONTRA UM TIRANO.

Em uma noite quente, um homem trazia sua esposa, esta montada em um burro que era puxado por seu marido, a mulher trazia em seus braços uma criança recém-nascida, deixavam seu país de origem rumo outro país, não a passeio, fugiam das atrocidades de um tirano buscavam salvar a vida de seu pequeno filho, eram imigrantes, eram refugiados.
Apesar das adaptações, torna-se óbvio que o texto a cima trata da história da fuga para o Egito, empreendida por José e Maria, levando o pequeno menino Jesus, como é relatado no livro de Mateus: 2: 13 – 18, estes fugiam do então imperador romanos Erodes Antipas, que mandara executar todas as crianças com idade igual ou inferior a 2 () anos, com a intenção de evitar o surgimento do “rei dos judeus”, previsto pelas escrituras; a família sagrada passou vários anos ainda no Egito, retornando para Belém, na Judeia apenas após a morte de erodes. Este episódio da vida de Jesus pode inclusive ser visto como um exilio político de sua família, uma vez que para o imperador, era seu governo que corria perigo diante do nascimento de um novo líder judeu, que os uniria e s libertaria.
O povo judeu é também um outro ótimo exemplo de imigração, sua história é quase que unicamente sobre tal fenômeno, desde a saída em busca da terra prometida, a chegada ao Egito, sua posterior escravização, a fuga deste, o cerco de Jericó e etc., porém, existem fenômenos migratórios mais antigos, e que cremos, devem ser apresentados.

UMA ESPÉCIE DE IMIGRANTES

Yuval Noah Harari em seu livro, Uma breve História da Humanidade, nos apresenta alguns dados curiosos, como por exemplo, o de que a aproximadamente 2 milhões de anos, seres humanos se espalharam do continente africano (continente de origem desta raça) para a Eurásia, 500 mil anos atrás, na Europa e Oriente Médio, chegariam os Neandertais, a 200 mil anos surgia o Homo sapiens na África Oriental, a partir deste continente o sapiens iria se espalhar pelo mundo, povoando a Austrália a 45 mil anos atrás e a 16 mil anos os sapiens chegaram a América, talvez não tenha ficado suficientemente claro, mas os dados a cima apresentados, “sugerem” que o homem é uma espécie naturalmente migratória, e que sua história é baseada na imigração.

A FALÁCIA DA ESCARCES DE TRABALHO

Porém, para grupos anti-imigração, surgem alguns argumentos que legitimam seu posicionamento, tais como o fato de que, os imigrantes ao chegarem ao país de destino não abandonam sua cultura, mas a mantêm em lugar de adotar os hábitos locais, argumento com o qual concordo em gênero, número e grau, e o motivo é bem simples, mas para explica-lo é necessário retornarmos 500 anos na história, quando os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil, trazendo consigo seus hábitos e costumes (cultura) que não abandonaram, mas sim os impuseram à população local, fazendo-os adotar sua religião, sistema de trabalho, vestimenta entre outros, os colonizadores europeus não foram bravos desbravadores de um a terra inóspita, foram sim, imigrantes, que buscavam imprimir em terras estrangeiras e com um modo de vida estabelecido, o seu modo de vida, e isso não se resume ao Brasil, tal processo deu-se em todo o continente americano, além de vários países africanos e asiáticos. Outro argumento, este sendo bastante falacioso, o de que imigrantes tomam os empregos do nativos do local onde se instalam, este discurso surge com maior força durante a década de 1930 na Europa pré-segunda guerra mundial, através dos partidos fascista italiano e nazista alemão, como uma maneira de justificar a crise que eclodia no mundo todo, causando desemprego e miséria a milhões de pessoas, baseado em um discurso populista de nacionalismo, cria-se o mito do imigrante usurpador de oportunidades.



A realidade porém é bem diferente, os imigrantes não roubam trabalho de ninguém, muito pelo contrário, segundo artigo do New York Times de 22 de maio de 2015, a entrada de imigrantes tende a aquecer a economia, uma vez que estes precisam, comer, vestir, morar, utilizar transportes e etc., fortalecendo assim a economia interna do país em questão, sem falar que na grande maioria das vezes, estes são empregados em funções nas quais os habitantes locais muitas vezes não querem atuar, como limpadores de piscinas, jardineiros, faxineiras, babás, entre outras, pelo seu baixo nível de formação, enquanto que aqueles com maior escolaridade atuam como marceneiros, eletricistas, mecânicos, um outro fator que desmente este argumento é o fato de que, na maioria dos países, para atuar em uma determinada área profissional, é necessário possuir o credenciamento nacional, de modo que, um professor brasileiro não pode simplesmente entrar em Londres e atuar em sua área lá, antes é preciso revalidar seu diploma, processo burocrático que pode levar algum tempo, além de custar algumas boas libras, o mesmo vale para médicos, advogados, (todo país possui seu órgão equivalente a nossa OAB) arquitetos, engenheiros e por aí vai, o que refuta definitivamente este argumento, que não tem outra finalidade que não, a de impedir que imigrantes, principalmente refugiados, sejam aceitos no país destino.

PORQUE NÃO QUEREMOS OS IMIGRANTES, QUANDO SOMOS UM PAÍS DE IMIGRANTES?

A questão aqui não se trata de não aceitar imigrantes, mas sim de quais imigrantes aceitar, por exemplo: nos EUA pós 11 de setembro, a entrada de indivíduos provenientes de países do Oriente Médio, ou de países de religião islâmica tornou-se muito mais difícil do que costumava ser, e por motivos óbvios, isso dar-se-ia algum tempo depois também em vários países da Europa, como é o caso hoje da França, devido a ideia de que esses países eram, países terroristas, e não países que sofriam tanto como os demais com a existência de facções terrorista em seu território, de que o islamismo é uma religião de radicais, e não uma denominação que é, assim como tantas, afligida por membros radicais, de modo que desenvolveu-se um medo no consciente e inconsciente coletivo que legitimaria, a proibição da entrada de novos imigrantes árabes nos EUA assim como a perseguição àqueles que já se encontravam ali.

No Brasil a coisa é um pouco mais complicada, afinal, não sofremos nenhum atentado terrorista, não temos nenhuma relação de animosidade com qualquer das nações cujos cidadão buscam abrigo no país, como por exemplo, Haiti e mais recentemente Venezuela, qual então o motivo de tanta polêmica? São na verdade dois possíveis motivos, o primeiro é o da falácia da escarces do trabalho, ou seja, a ideia de que a entrada de imigrantes aumenta o desemprego da população local, como já foi apresentado anteriormente, uma parcela considerável da população acredita nessa ideia; o segundo possível fator, é o boa e velha discriminação tão presente na história do nosso lindo país, que gera uma xenofobia bastante atuante que nos impede de ver com o mínimo de empatia a situação daqueles que desesperadamente buscam abrigo nas terras tupiniquins.

Contudo, esse comportamento não é válido para todos os imigrantes, a coisa muda de figura dependendo das condições daqueles que buscam adentrar o país, se o imigrante em questão, for um dinamarquês que trás consigo uma quantia considerável de capital, o qual pretende investir em uma micro empresa, este será muito bem vido, porém, sendo um argeliano que foge dos conflitos de seus país, e vem com nada mais que o suficiente para manter-se durante um mês, as portas já se encontraram semicerradas para este, o mesmo pode-se se dizer de um pequeno proprietário holandês que mude-se para os EUA em busca de novos ares, e um colombiano que fuja das FARC. A xenofobia é seletiva e cruel.



As fronteiras nacionais assim como o dinheiro são criações humanas, abstrações às quais atribuímos valores, nenhum território no globo terrestre surgiu com delimitações geográficas naturais, a não ser vales desérticos, mares, montanhas e selvas, que ainda assim foram sendo transpostas de acordo com a necessidade humana, obviamente, a segurança de um povo e seu bem estar, estão em primeiro lugar (embora na maioria dos casos não pareça) porém, não parece justo negar aqueles que buscam uma nova oportunidade de vida, o direito de te-la, pelo fato de não serem naturais do país onde a buscam, negar àqueles que fogem do sofrimento provocado pela miséria e pela guerra, o direito de sentirem-se seguros em países um pouco mais estáveis que o seu de origem, virar as costas a quem precisa encarecidamente de ajuda, parece de uma crueldade que nem mesmo o homem deveria ser capaz de praticar.

É estranho ouvir pessoas que se dizem cristãs, defenderem a proibição de venezuelanos no brasil, ainda mais em vésperas do nascimento da entidade de maior importância de sua religião, ignorando completamente que Jesus Cristo foi também um imigrante, um refugiado, esquecendo que este é um país de imigrantes, onde africanos, trabalharam forçosamente, italianos ajudaram a construir a riqueza do café, portugueses desenvolveram diversos aspectos de nossa cultura, entre tantos outros povos, por que hoje, virar as costas para quem nos estende a mão em busca de socorro?        

sábado, 15 de dezembro de 2018


A ÉTICA POLÍTICA, E PORQUÊ NÃO CONSEGUIMOS PRATICA-LA


Nos últimos anos, a discussão em torno da corrupção, da defesa de um comportamento moral e ético no campo político têm alcançado enorme destaque na sociedade, não apenas brasileira, mas mundial, gerando polarizações que poderiam ser evitadas caso possuíssemos um comportamento político um pouco mais adequado, deixando de lado nossas paixões e interesses pessoais, e analisando a política de forma objetiva enquanto ciência, o que de fato esta é, porém não é o que ocorre, o que mais se busca no debate sobre tal campo é, o comportamento moral dos candidatos ou políticos atuantes, sua postura diante das polêmicas como aborto e legalização das drogas e etc., seu histórico passa muitas vezes despercebido (que o diga Fernando Collor de Melo) gerando uma sequência de enganos quase interminável, porém sempre buscando o perfeito sujeito ético que transformará a realidade.

De forma bastante resumida, de acordo com a Escola Clássica de Filosofia, a Moral seria uma forma de comportamento prático, cotidiano, e construído socialmente, enquanto que a Ética seria um conjunto de ideias que nos guia ao comportamento correto, sendo que, para se ter um comportamento moral ético, é necessário faze-lo pelo simples ato de faze-lo e não por persuasão ou coerção, um exemplo seria o cumprimento das leis: não dirigir alcoolizado por saber que é incorreto, e não apenas por medo das punições e/ou consequências que se pode sofre por tal habito.

Diante disso, surge um questionamento, existe ética na política? Ou o que viria a ser a ética política?

Para o filósofo chinês Confúcio, que viveu estima-se, no ano 550 a.C, a ética e apolítica caminham de mãos dadas, uma vez que para este, os cargos de diligencia (como referia-se aos governadores) estavam destinados aos homens sábios, indivíduos que dedicaram sua vida a aquisição de conhecimento, tornando-se assim homens éticos, uma vez que, para a filosofia clássica, tanto oriental quanto ocidental, há um consenso com relação a ideia de que a busca por sabedoria impulsiona os homens a uma vida de virtudes, e isso pode ser visto não apenas em Confúcio, mas também em Sócrates, Platão, Aristóteles e mesmo nos pensadores do iluminismo; Confúcio chamará este homem de “Homem Shu” ao passo que para Platão, este seria o Aristocrata[1], assim sendo, o governo estaria destinado a pessoas dotadas de razão, moral elevada e comportamento ético, preparadas para o momento em que lhes fosse requerido[2] assumir o cargo de dirigente, que pudessem colocar as necessidades do povo em primeiro plano.   

Tal pensamento será bastante semelhante ao do filósofo Francês do século XVIII, Jean Jaques Rousseau, em seu trabalho, O contrato social, no qual nos diz que, o soberano, ou seja, o sujeito que assume um cargo eletivo - no nosso caso um cargo no executivo - deve a princípio de tudo, no exercício de seu cargo, abrir mão de seus objetivos pessoais e assumir um compromisso inalienável com os interesses comunitários, (questão inclusive que é contemplada pela constituição brasileira de 1989) deixar de pensar no eu para passar a pensar “no nós” ou no eles, uma vez que este é um representante eleito das vontades e anseios do povo, e que a soberania, surge justamente através do povo de acordo com Rousseau.

A ética política pode ser resumida nessas palavras de Rousseau e Confúcio, porém sabemos que não é bem assim que as coisas se dão, mas o que impede que o soberano, no caso, um prefeito, um governador ou um presidente, ou mesmo os legisladores, vereadores, deputados e senadores comportem-se de tal forma?

Existem duas possíveis razões, a primeira delas é a de que nenhum desses se elege como um representante do povo como um todo, mas sim de algumas parcelas do mesmo, e essas parcelas podem ser dívidas em duas: sua base de apelo e os financiadores da campanha; a primeira pode ser composta por: uma determinada classe social, uma categoria profissional, uma denominação religiosa etc., esse será seu “público alvo” aquele a quem apresentará suas propostas com maior ênfase e a quem representará caso eleito; o segundo é composto basicamente por empresários que serão ainda mais representados que o primeiro grupo, por motivos óbvios, o segundo motivo vem a ser a corrupção, mal do qual, aparentemente torna-se quase impossível escapar, pelo simples fato da necessidade de apoio que os governantes precisam para por em prática ao menos dez por cento daquilo com que se comprometeram durante a campanha.

Mesmo aqueles que levantam a bandeira anticorrupção em maior ou menor medida não conseguem fugir da mesma, dado o fato de que em algum momento necessitará nomear ou fazer alguma aliança com algum acusado de desvio de verbas, caixa dois, superfaturamento de obras e afins, de modo que, atuar de maneira ética no campo político, muito mais que na esfera pessoal é de grande dificuldade, não se trata de algo impossível, apenas complicado de ser posto em prática, principalmente pelo fato de que, o presidente ou governador que tente realizar de fato um programa de governo que vise extinguir a corrupção, provavelmente encontrar-se-á em um enorme estado de solidão, uma vez que terá que perseguir uma parcela considerável daqueles que compõem seu governo. As alianças com indivíduos investigados, acusados ou mesmo condenadas em algum momento por atos ilícitos no exercício do cargo ocorrem principalmente pela necessidade de apoio no momento da aprovação de propostas de programas ou de projetos de lei, assim, um governante pode indicar um ministro, ou admitir um senador em sua equipe de governo, por este ser um grande articulador, em especial nos bastidores políticos, por ter uma ótima capacidade de persuasão ou aliciação de daqueles que votarão tais projetos, conquistando assim seu apoio e proporcionando a aprovação dos mesmos.

A falta de ética política não resume-se entretanto aos políticos profissionais, o eleitorado também comportar-se por vezes de maneira duvidosa, principalmente durante as campanhas municipais, onde o contato com os candidatos é mais direto, mais próximo, possibilitando assim a realização de práticas ilícitas com maior facilidade, como a compra e venda de votos; contudo, a ausência da ética dá-se também nas altas esferas eleitorais, quando o eleitor por exemplo vota em um candidato visando apenas o que este pode fazer por sua pessoa, pelo fato de suas propostas representarem interesses pessoais, pondo de lado e até mesmo ignorando completamente a forma como o programa de governo do seu candidato afetará de maneira positiva ou negativa o todo da nação nos mais variados aspectos.

É necessário, porém, frisar que nem todos os indivíduos que atuam de maneira mais direta na política são antiéticos e/ou corruptos, o que abordamos aqui é o fato de muitas vezes mostrar-se quase impossível para estes atuar de modo afastado dos que assim o são dadas as circunstâncias.

De forma resumida, diria que o comportamento ético na política assim como na vida pessoal, surge por meio do conhecimento, a partir do momento em que o sujeito trava um contato aprofundado com o significado dos termos, política, democracia e ética, quando passa a analisar a política de forma objetiva enquanto ciência como de fato deve ser, e não apenas como um jogo de troca de favores e conveniências, este passa a ter um comportamento muito mais apropriado eticamente falando. Este comportamento baseado na razão possibilita também que outro comportamento seja suprimido, a intolerância e a polarização política.

Diante de tudo isso, permanece a questão, existe Ética em nossa Política? 


[1] Aristocrata aqui no sentido etimológico do termo, significando um governo composto por indivíduos com uma boa formação educacional, capazes de interpretar os desejos e necessidades do povo, governando de forma ética e moral, bem diferente do significado que acabou tomando com o passar do tempo, que o descreve como nobreza, superioridade financeira e tradição familiar.
[2] Para Confúcio, não seria o individuo a buscar assumir os cargos de governo, mas sim a sociedade, o Estado que lhe requereriam, por isso este deveria estar preparado para caso esse momento chegasse.