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| Ilustração de A Utopia de Thomas Morus 1518 |
As utopias estão morrendo, década
a década vão esmorecendo, agonizando e finalmente dando o suspiro final; o
pensamento coletivo, a preocupação com o todo, estão saindo de sena e dando
lugar a um personalismo, egocentrismo, individualismo que não permite que
pensemos no outro, no próximo, no irmão ou como quer que chamem, o máximo que
temos é a simpatia por pequenos grupos que aceitam nossas ideologias, nossas
crenças, nossas convicções, se estes estiverem bem, ótimo, então estará tudo
bem.
Segundo o dicionário Scottini
de língua portuguesa, utopia significa: fantasia, irrealidade, quimera, sonho,
devaneio; em sua obra de mesmo nome Thomas Morus descreve Utopia como o nome de
um pequeno país fictício onde se havia alcançado um grau elevado de igualdade,
justiça e democracia, onde a aquisição e acumulo de riquezas deixara de ser o
objetivo final do Estado, dando lugar a conquista da felicidade e bem estar de
seus habitantes, hoje, infelizmente, o termo tem a penas a conotação descrita
pelo dicionário. Em vários momentos da História da humanidade o pensamento
coletivo foi o motor para as realizações; durante o renascimento, pensou-se em
como através da influência da cultura clássica o homem poderia alcançar um
maior nível de conhecimento, de aprimoramento intelectual, de abandono das
antigas superstições e como resultado, poderia construir uma sociedade melhor,
cientificamente avançada, conhecedora de si mesma; seguindo os mesmos passos,
mas aperfeiçoando-os, o iluminismo propunha uma sociedade esclarecida, onde
toda e qualquer medida passaria pelo crivo popular, que dotado de conhecimento
tomaria em suas mãos as rédeas do destino coletivo, novamente proporcionando
igualdade, três séculos e meio mais tarde, a contra cultura pediria pelo fim
das guerras e sugeriria uma sociedade irmanada, onde homens, mulheres e
crianças independente de nacionalidade ou etnia, tivessem uma vida harmônica entre
si e com o mundo, tendo as mesmas oportunidades. Infelizmente, todas essas
ideias tem se perdido no que Bauman chamou de modernidade liquida, uma
sociedade onde tudo torna-se cada vez mais efêmero, desimportante ao passo que
se torna antigo, onde a única coisa que permanece é o pensamento no eu.
Em nossa atual sociedade (falo
aqui de sociedade global, e não apenas brasileira) o pensamento coletivo, o bem
mutuo, tem dado cada dia mais, lugar a um individualismo egocêntrico, no qual
não há espaço para pensar no que seria melhor para o todo, o que mais se
aproxima disso, é a formação de pequenos grupos organizados ou não, que
identificam-se politica, ideológica ou religiosamente. Indivíduos que enxergam
a intervenção militar no governo, a privatização, ou a diminuição do estado
como soluções para os problemas, reúnem-se em uma micro comunidade, sujeitos
que aprovam a reforma agraria, a melhor divisão de riquezas, e maior investimento
em saúde, educação e segurança públicas em uma outra micro comunidade, e
aqueles que se encontram no meio termo, em mais uma, mas ambas tem algo em
comum, todas creem veementemente que são portadoras da verdade absoluta e que
as demais representam o que há de mais execrável, social, politica e
ideologicamente falando.
Estes três grupos, auto
definem-se como sendo, direita, esquerda e centro, nesta ordem, cada um com seu
plano mágico de salvação da pátria. Nos últimos 15 anos, com a explosão das
redes sociais, assim como de canais de streaming
que permitem a produção de conteúdo pelo próprio público, surgiram diversas
personagens que defendem de forma aberrante seus posicionamentos políticos,
na grande maioria das vezes por meio de insultos direcionados àqueles que não
comungam de suas ideias, estes sujeitos fazem bastante sucesso na rede e são
vistos por muitos como formadores de opinião. Não há problema algum em expressar
suas opiniões e defender suas convicções, mas há um equivoco muito grande em
não perceber a realidade.
Enquanto estes grupos digladiam-se em nome de
uma suposta esquerda mortadela, de uma direita coxinha ou de um centro (ainda sem
um prato favorito eleito), não percebem que todas essas denominações ou
orientações comem no mesmo prato e dormem na mesma cama. A pelo menos 20 anos,
não temos mais uma definição prática do posicionamento dos partidos políticos e
de seus membros, e a prova cabal disso, foi a aliança Dilma Temer, a coligação
PT/PMDB, dois partidos teoricamente antagônicos, esse é apenas o exemplo mais
conhecido, casos semelhantes ocorrem com frequência no jogo político-partidário,
e qual o elo de ligação entre dois partidos historicamente rivais, o que motiva
que façam uma aliança tão inimaginável? Simples, a perpetuação no poder. Segundo
José Carlos Cardoso, Mestre em direito pela universidade Gama Filho- RJ, em sua
obra, A fidelidade partidária: “No que se refere às ideologias políticas, não
existe comprovação definitiva de sua validade; sendo, no entanto, inegável
reconhecer-se que ela não acaba, mas transfere-se de área em função do momento
político.”, em uma palavra, a ideologia político-partidária é uma ferramenta a
ser utilizada de acordo com a necessidade, então, mesmo sendo uma aberração da
natureza política, alianças entre partidos rivais acontecem de forma natural,
de acordo com as necessidades e ambições que o momento político proporciona. Enquanto os legisladores encontram-se na
calada da noite para tratar de acordos sigilosos que beneficiam apenas a si
próprios, ou as classes que representam (em geral o latifúndio, os bancos, o
mercado e a indústria), enquanto todas as ideologias políticas aliam-se para
chegar a um denominador comum (no caso, a perpetuação no poder) a população
segrega-se de forma automática, defendendo partidos que na verdade são
simplesmente faces diferentes de uma mesma moeda, e políticos de estimação que
estimam somente o enriquecimento pessoal, desse modo, cada um defende o plano
de governo, a emenda à constituição, o projeto de lei que beneficie o seu próprio
grupo de Whatapp, os seguidores de
sua página de facebook ou os
inscritos em seu canal do youtube, desconsiderando
o enorme contingente que será direta ou indiretamente prejudicado pelos mesmos.
As utopias estão morrendo,
os países estão dividindo-se em seu próprio interior, cada pessoa quer saber
apenas de si, cada grupo luta apenas em beneficio próprio, ao passo que a
sociedade no geral está entrando em colapso, financeiro, político e social, mas
nós não percebemos, pois estamos ocupados demais trocando insultos nas redes
sociais, tentando provar sem base alguma, o quanto a nossa crença é superior, o
quanto Von Misses, Carl Marx ou Adam Smith estão incontestavelmente corretos em
suas teorias, em discursos que tem unicamente como efeito, desviar nossa atenção
do que realmente importa, o bem comum.



