terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Doses cavalares de remédios amargos

Nos últimos dois anos, assistimos serem tomadas uma serie de medidas no mínimo surpreendentes, em sua maioria com o objetivo de recuperar a economia nacional, tendo em vista tal ponto, foi realizada a reforma trabalhista, que em suma, trata de diminuir os vínculos entre empregador e empregado, retirando a responsabilidade do primeiro em assumir todos os compromissos implementados pela legislação trabalhista a aproximadamente cinco décadas com o segundo; vimos também ser aprovada a PEC dos gastos, que como o nome propõe, reduz os “gastos” com saúde, educação e segurança pública e vimos ser proposta a reforma da previdência, que de forma resumida, aumenta o tempo de trabalho e contribuição do trabalhador para que tenha direito ao beneficio.

Mas em ano de eleições, surge um novo projeto, desta vez sob forma de decreto presidencial, e como tal, deve ser votado pela câmara dos deputados e pelo senado federal em caráter de urgência; é a proposta de intervenção federal na cidade do Rio de Janeiro. A violência no Estado do Rio é aberrante, todos sabemos disso, e sabemos também que não é um fenômeno recente, a formação das favelas cariocas e posteriormente o surgimento de facções criminosas nas mesmas vem de décadas, a produção nacional Cidade de Deus de 2002 de direção de Fernando Meirelles e Kátia Lund apresenta bem o panorama da formação das comunidades e do surgimento e desenvolvimento do crime nas mesmas, mas para quem não viu ou não entendeu, resumirei o processo: Existe um grande contingente de pessoas sem moradia própria e sem a menor perspectiva de adquirir uma pelos meios convencionais, financiamento ou uma compra direta, essas pessoas estão vivendo em cortiços pelo centro da cidade ou bairros satélites do mesmo, o que contrasta bastante com o senário de desenvolvimento que tais áreas devem ter nas grandes cidades, repletos de lojas, bancos e etc., como resolver então o problema? Simples, a construção de casas populares, as famosas cohabs, que são sempre localizadas longe o suficiente para não interferir de forma direta na infraestrutura urbana, geralmente, no ato da entrega das casas a seus moradores, esses novos bairros são desprovidos ainda de, escolas, postos de saúde e principalmente, segurança pública, afastados dos grandes centros e sem a mínima intervenção do Estado, tornam-se rapidamente um chamariz para atividades criminosas, que infelizmente, tendem a crescer, essa é a história resumida de ao menos duas comunidades carentes brasileiras, a já citada cidade de Deus no Rio de Janeiro e a Ceilândia no Distrito Federal.

Pois bem, como sabemos, onde o estado é ausente alguma outra forma de poder tende a assumir seu lugar, e aqui, lamentavelmente foi o crime quem assumiu tal posto; a intervenção é ruim? Bem, não temos como saber ainda, mas levando em consideração métodos semelhantes utilizados anteriormente, podemos realizar uma prospecção, se não, ao menos imaginar um cenário hipotético. Em 2008 teve inicio o processo de pacificação das favelas do Rio, centenas de policiais equipados com armas de grosso calibre, em tanques de guerra entraram nas comunidades com o intuito de expulsar os criminosos, prende-los ou mata-los, a intenção parecia boa e a causa era nobre, mas infelizmente as coisas não saíram como se esperava, rapidamente começaram a surgir informações de que policiais estavam cometendo excessos, invadindo casas de moradores além de agredi-los, (sem falar nas baixas de civis que foram atingidos pelo fogo cruzado) posteriormente veio a público o fato de que as áreas que foram “liberadas” do domínio do tráfico eram agora controladas pelas milícias.

A famigerada ideia de uma intervenção do exercito nas favelas não apenas do Rio, mas no restante do país não é uma invenção de Michel Temer, já a pelo menos uma década se discute isso, mas por questões orçamentárias, de opinião pública ou mesmo de logística a ideia vinha sendo deixada de lado. Segundo cientistas políticos, esta medida é uma forma de ganhar aceitação entre o eleitorados em vésperas de eleição, tudo não passaria de uma manobra engendrada diante do visível fracasso em implementar a reforma da previdência, como mexer no bolço do brasileiro não causou o efeito esperado, o cada dia mais animado com uma utópica reeleição, Temer, buscou atiçar aquilo que mais toca o povo brasileiro, o medo.

É possível que essa medida traga resultados, mas segundo especialistas do setor de segurança, esta não passaria de um paliativo, traria resultados rápidos assim como foi o caso da pacificação ocorrida entre 2008 e 2012, onde após pouco tempo a situação retrocedeu para o que infelizmente é o normal em tais comunidades, qual seria então a solução para o problema de segurança nessas localidades? Simples, a participação do estado. Sem sombra de dúvidas, realizar tal empreendimento será bem mais trabalhoso do que é sugeri-lo, mas é provavelmente o que mais chances de sucesso pode ter, se estas comunidades tiverem um apoio de segurança constante, com delegacias ou subdelegacias constantemente em funcionamento, escolas dentro da própria comunidade oferecendo atividades diversas aos educandos, postos de saúde ou UPA’s funcionando diuturnamente, entre outras instituições, proporcionando um trafego de pessoas constante, além de um comércio ativo e de opções de lazer que convidem os moradores a frequenta-las, não haverá mais espaço para a criminalidade, se o estado proporcionar o surgimento de oportunidades de vida digna para os moradores das favelas, mão haverá motivos para se deixar seduzir pelo crime.

Enquanto não tratarmos da maneira correta, o problema, este nunca deixará de existir, pode sair de cena durante algum tempo mas logo voltará a atormenta-nos, enquanto não dermos condições de vida digna ao nosso povo, nosso exercito permanecerá travando guerra apenas contra seus irmãos compatriotas, milhares continuarão morrendo entre culpados e inocentes, e o crime permanecerá prevalecendo. Enquanto não aprendermos eliminar eficazmente nossas mazelas, continuaremos tomando sem resultado duradouro, doses cavalares de remédios amargos.

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