quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

As utopias estão morrendo

Ilustração de A Utopia de Thomas Morus 1518

As utopias estão morrendo, década a década vão esmorecendo, agonizando e finalmente dando o suspiro final; o pensamento coletivo, a preocupação com o todo, estão saindo de sena e dando lugar a um personalismo, egocentrismo, individualismo que não permite que pensemos no outro, no próximo, no irmão ou como quer que chamem, o máximo que temos é a simpatia por pequenos grupos que aceitam nossas ideologias, nossas crenças, nossas convicções, se estes estiverem bem, ótimo, então estará tudo bem.

Segundo o dicionário Scottini de língua portuguesa, utopia significa: fantasia, irrealidade, quimera, sonho, devaneio; em sua obra de mesmo nome Thomas Morus descreve Utopia como o nome de um pequeno país fictício onde se havia alcançado um grau elevado de igualdade, justiça e democracia, onde a aquisição e acumulo de riquezas deixara de ser o objetivo final do Estado, dando lugar a conquista da felicidade e bem estar de seus habitantes, hoje, infelizmente, o termo tem a penas a conotação descrita pelo dicionário. Em vários momentos da História da humanidade o pensamento coletivo foi o motor para as realizações; durante o renascimento, pensou-se em como através da influência da cultura clássica o homem poderia alcançar um maior nível de conhecimento, de aprimoramento intelectual, de abandono das antigas superstições e como resultado, poderia construir uma sociedade melhor, cientificamente avançada, conhecedora de si mesma; seguindo os mesmos passos, mas aperfeiçoando-os, o iluminismo propunha uma sociedade esclarecida, onde toda e qualquer medida passaria pelo crivo popular, que dotado de conhecimento tomaria em suas mãos as rédeas do destino coletivo, novamente proporcionando igualdade, três séculos e meio mais tarde, a contra cultura pediria pelo fim das guerras e sugeriria uma sociedade irmanada, onde homens, mulheres e crianças independente de nacionalidade ou etnia, tivessem uma vida harmônica entre si e com o mundo, tendo as mesmas oportunidades. Infelizmente, todas essas ideias tem se perdido no que Bauman chamou de modernidade liquida, uma sociedade onde tudo torna-se cada vez mais efêmero, desimportante ao passo que se torna antigo, onde a única coisa que permanece é o pensamento no eu.

Em nossa atual sociedade (falo aqui de sociedade global, e não apenas brasileira) o pensamento coletivo, o bem mutuo, tem dado cada dia mais, lugar a um individualismo egocêntrico, no qual não há espaço para pensar no que seria melhor para o todo, o que mais se aproxima disso, é a formação de pequenos grupos organizados ou não, que identificam-se politica, ideológica ou religiosamente. Indivíduos que enxergam a intervenção militar no governo, a privatização, ou a diminuição do estado como soluções para os problemas, reúnem-se em uma micro comunidade, sujeitos que aprovam a reforma agraria, a melhor divisão de riquezas, e maior investimento em saúde, educação e segurança públicas em uma outra micro comunidade, e aqueles que se encontram no meio termo, em mais uma, mas ambas tem algo em comum, todas creem veementemente que são portadoras da verdade absoluta e que as demais representam o que há de mais execrável, social, politica e ideologicamente falando.

Estes três grupos, auto definem-se como sendo, direita, esquerda e centro, nesta ordem, cada um com seu plano mágico de salvação da pátria. Nos últimos 15 anos, com a explosão das redes sociais, assim como de canais de streaming que permitem a produção de conteúdo pelo próprio público, surgiram diversas personagens que defendem de forma aberrante seus posicionamentos políticos, na grande maioria das vezes por meio de insultos direcionados àqueles que não comungam de suas ideias, estes sujeitos fazem bastante sucesso na rede e são vistos por muitos como formadores de opinião. Não há problema algum em expressar suas opiniões e defender suas convicções, mas há um equivoco muito grande em não perceber a realidade.

 Enquanto estes grupos digladiam-se em nome de uma suposta esquerda mortadela, de uma direita coxinha ou de um centro (ainda sem um prato favorito eleito), não percebem que todas essas denominações ou orientações comem no mesmo prato e dormem na mesma cama. A pelo menos 20 anos, não temos mais uma definição prática do posicionamento dos partidos políticos e de seus membros, e a prova cabal disso, foi a aliança Dilma Temer, a coligação PT/PMDB, dois partidos teoricamente antagônicos, esse é apenas o exemplo mais conhecido, casos semelhantes ocorrem com frequência no jogo político-partidário, e qual o elo de ligação entre dois partidos historicamente rivais, o que motiva que façam uma aliança tão inimaginável? Simples, a perpetuação no poder. Segundo José Carlos Cardoso, Mestre em direito pela universidade Gama Filho- RJ, em sua obra, A fidelidade partidária: “No que se refere às ideologias políticas, não existe comprovação definitiva de sua validade; sendo, no entanto, inegável reconhecer-se que ela não acaba, mas transfere-se de área em função do momento político.”, em uma palavra, a ideologia político-partidária é uma ferramenta a ser utilizada de acordo com a necessidade, então, mesmo sendo uma aberração da natureza política, alianças entre partidos rivais acontecem de forma natural, de acordo com as necessidades e ambições que o momento político proporciona.  Enquanto os legisladores encontram-se na calada da noite para tratar de acordos sigilosos que beneficiam apenas a si próprios, ou as classes que representam (em geral o latifúndio, os bancos, o mercado e a indústria), enquanto todas as ideologias políticas aliam-se para chegar a um denominador comum (no caso, a perpetuação no poder) a população segrega-se de forma automática, defendendo partidos que na verdade são simplesmente faces diferentes de uma mesma moeda, e políticos de estimação que estimam somente o enriquecimento pessoal, desse modo, cada um defende o plano de governo, a emenda à constituição, o projeto de lei que beneficie o seu próprio grupo de Whatapp, os seguidores de sua página de facebook ou os inscritos em seu canal do youtube, desconsiderando o enorme contingente que será direta ou indiretamente prejudicado pelos mesmos.

As utopias estão morrendo, os países estão dividindo-se em seu próprio interior, cada pessoa quer saber apenas de si, cada grupo luta apenas em beneficio próprio, ao passo que a sociedade no geral está entrando em colapso, financeiro, político e social, mas nós não percebemos, pois estamos ocupados demais trocando insultos nas redes sociais, tentando provar sem base alguma, o quanto a nossa crença é superior, o quanto Von Misses, Carl Marx ou Adam Smith estão incontestavelmente corretos em suas teorias, em discursos que tem unicamente como efeito, desviar nossa atenção do que realmente importa, o bem comum.

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