terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Somos uma "republiqueta de bananas", só porque não lemos Rousseau

Somos uma republiqueta de bananas, como disse o escritor norte-americano William Sydney Porter, mais conhecido com O. Henry em seu conto, O Almirante de 1994, principalmente porque não lemos Rousseau. Mas qual a relação entre uma coisa e outra? É bem mais simples do que parece.


Em sua obra, O Contrato social de 1762, Rousseau, um dos um dos mais importantes pensadores políticos e sociais do iluminismo, nos apresenta à sua visão do que seria a democracia real, (grifo nosso); real pelo fato de sugerir a forma como deveria funcionar o estado democrático para ser considerado verdadeiramente como tal. Neste ensaio, o autor apresenta vários princípios que caracterizariam uma democracia, entre estes estão dois que considero fundamentais, o primeiro é o de que o governante (prefeito, governador e presidente em suas devidas instâncias), deveria abandonar a primeira pessoa do singular em favor da primeira ou terceira do plural, em suma, deveria parar de agir e pensar no eu, e passar a pensar e agir no nós ou no eles enquanto exercesse a função de representante do povo, esquecer seus propósitos e planos individuais e pensar no coletivo, uma vez que o Estado seria a representação da vontade e das necessidades da coletividade e por isso, deve funcionar por meio do povo e para o mesmo, e não como um meio de se atingir objetivos particulares. O segundo principio apresentado pelo autor é o de que a democracia só é real, quando o povo participa de forma ativa em todos os processe ocorridos no estado, ou seja, todos os projetos de lei, as emendas à constituição, entre outros, deveriam passar pela avaliação popular, e não passando por seu crivo, não serem aprovadas, isso se daria por meio da realização de plebiscitos, como por exemplo os ocorridos para aprovação do Acordo de Livre Comercio das Américas (Alca) ocorrido de 1 a 7 de setembro de 2002, ou do estatuto do desarmamento, realizado em 23 de outubro de 2005, evitando que a população do país em questão, seja prejudicada por leis injustas, e que setores como o mercado e a indústria, ou mesmo pessoas físicas se beneficiem em detrimento de outras classes da sociedade.
Obviamente, nosso modelo de “democracia” funciona de modo bem diferente do proposto por Rousseau, e não apenas a nossa, mas a de vários países mundo a fora, nosso modelo se resume a uma mínima participação OBRIGATÓRIA, nas eleições e ponto final, onde geralmente e quase invariavelmente, elegemos indivíduos e grupos que não representam nossos interesses, mas esse é assunto para outro artigo; estes indivíduos são incumbidos da responsabilidade de propor e aprovar ou rejeitar projetos de lei, sem nem ao menos realizar pesquisas visando, analisar o percentual de aceitação dos mesmos, em sua maioria, estes projetos beneficiam a indústria, o mercado, o latifúndio, ao passo que agride direitos conquistados num longo período de lutas, e geralmente nos mantemos bastante acomodados diante de tal fato, excetuando-se algumas manifestações que são desacreditadas e deslegitimadas pela grande mídia, não entendemos que, cada ação que vise modificar o modo como funciona a sociedade nos atinge direta ou indiretamente e que justamente por isso deveríamos participar de toda e qualquer tomada de decisão, mas nos abstemos, só assim, podemos culpar o outro por o que quer que venha a dar errado, nada é culpa nossa. Nesse ponto, lembro me de Immanuel Kant, e sua tese da menor e maior idade intelectual, segundo a qual, através do conhecimento crescemos enquanto pessoas e consequentemente, passamos a assumir responsabilidade por nossas escolhas e atos; justamente por não termos o conhecimento como algo natural a nós, por vermos o conhecimento como um privilégio, é que nos encontramos na atual situação.
Ler O contrato social simplesmente, com certeza não resolveria nossos problemas, não sanaria nossas mazelas, mas sem sombra de dúvida nos esclareceria sobre os meios por meio dos quais poderíamos fazê-lo. Ter conhecimento a cerca do real sentido do conceito de democracia nos faria perceber que não vivemos em uma, ao menos não em uma real, mas sim, em uma plutocracia, na qual servimos de mão de obra e de ferramenta para a manutenção do poder de uma aristocracia mercadológica, industrial, latifundiária, etc., que nossas necessidades são simplesmente ignoradas, quando não maquiadas por assistencialismos que nos tornam eternamente dependentes da caridade do Estado. O contrato social, assim como tantas obras magnificas, é depositário de perigoso conhecimento a cerca de como deve funcionar uma democracia e é por esse simples motivo que em nossas escolas não ouvimos se quer seu nome.


Somos uma republiqueta de bananas, governados por senhores oligarcas que trabalham pelo sucesso individual e esquecem que o estado deve agir para e pelo povo que o forma, somos geridos por um conjunto de déspotas, que tomam os cargos públicos para si e enriquecem por meio destes, de forma licita ou não, sua autoridade torna-se inquestionável, pelo simples fato de os mesmos assim determinarem, não temos direito se quer de opinar naquilo que atingirá nossas vidas, tudo isso por não sabermos como funciona uma república democrática, quais os fundamentos da democracia, somos uma republiqueta de bananas, principalmente, porque não lemos Rousseau.
(Segue link do livro em questão em PDF, para os interessadoshttp://lelivros.love/book/download-do-contrato-social-jean-jacques-rousseau-em-epub-mobi-e-pdf/)

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