
Somos uma republiqueta de bananas, como disse o escritor
norte-americano William Sydney Porter, mais conhecido com O. Henry em seu
conto, O Almirante de 1994, principalmente porque não lemos Rousseau. Mas qual
a relação entre uma coisa e outra? É bem mais simples do que parece.
Em sua obra, O Contrato social de 1762, Rousseau, um dos um dos
mais importantes pensadores políticos e sociais do iluminismo, nos apresenta à
sua visão do que seria a democracia real,
(grifo nosso); real pelo fato de sugerir a forma como deveria funcionar o
estado democrático para ser considerado verdadeiramente como tal. Neste ensaio, o autor
apresenta vários princípios que caracterizariam uma democracia, entre estes
estão dois que considero fundamentais, o primeiro é o de que o governante
(prefeito, governador e presidente em suas devidas instâncias), deveria
abandonar a primeira pessoa do singular em favor da primeira ou terceira do
plural, em suma, deveria parar de agir e pensar no eu, e passar a pensar e agir
no nós ou no eles enquanto exercesse a função de representante do povo,
esquecer seus propósitos e planos individuais e pensar no coletivo, uma vez que
o Estado seria a representação da vontade e das necessidades da coletividade e
por isso, deve funcionar por meio do povo e para o mesmo, e não como um meio de
se atingir objetivos particulares. O segundo principio apresentado pelo autor é
o de que a democracia só é real, quando o povo participa de forma ativa em
todos os processe ocorridos no estado, ou seja, todos os projetos de lei, as
emendas à constituição, entre outros, deveriam passar pela avaliação popular, e
não passando por seu crivo, não serem aprovadas, isso se daria por meio da
realização de plebiscitos, como por exemplo os ocorridos para aprovação do
Acordo de Livre Comercio das Américas (Alca) ocorrido de 1 a 7 de setembro de
2002, ou do estatuto do desarmamento, realizado em 23 de outubro de 2005,
evitando que a população do país em questão, seja prejudicada por leis injustas,
e que setores como o mercado e a indústria, ou mesmo pessoas físicas se
beneficiem em detrimento de outras classes da sociedade.
Obviamente, nosso modelo de “democracia” funciona de modo bem
diferente do proposto por Rousseau, e não apenas a nossa, mas a de vários
países mundo a fora, nosso modelo se resume a uma mínima participação
OBRIGATÓRIA, nas eleições e ponto final, onde geralmente e quase
invariavelmente, elegemos indivíduos e grupos que não representam nossos
interesses, mas esse é assunto para outro artigo; estes indivíduos são
incumbidos da responsabilidade de propor e aprovar ou rejeitar projetos de lei,
sem nem ao menos realizar pesquisas visando, analisar o percentual de aceitação
dos mesmos, em sua maioria, estes projetos beneficiam a indústria, o mercado, o
latifúndio, ao passo que agride direitos conquistados num longo período de
lutas, e geralmente nos mantemos bastante acomodados diante de tal fato,
excetuando-se algumas manifestações que são desacreditadas e deslegitimadas
pela grande mídia, não entendemos que, cada ação que vise modificar o modo como
funciona a sociedade nos atinge direta ou indiretamente e que justamente por
isso deveríamos participar de toda e qualquer tomada de decisão, mas nos
abstemos, só assim, podemos culpar o outro por o que quer que venha a dar
errado, nada é culpa nossa. Nesse ponto, lembro me de Immanuel Kant, e sua tese
da menor e maior idade intelectual, segundo a qual, através do conhecimento
crescemos enquanto pessoas e consequentemente, passamos a assumir
responsabilidade por nossas escolhas e atos; justamente por não termos o
conhecimento como algo natural a nós, por vermos o conhecimento como um
privilégio, é que nos encontramos na atual situação.
Ler O contrato social simplesmente, com certeza não resolveria
nossos problemas, não sanaria nossas mazelas, mas sem sombra de dúvida nos
esclareceria sobre os meios por meio dos quais poderíamos fazê-lo. Ter
conhecimento a cerca do real sentido do conceito de democracia nos faria
perceber que não vivemos em uma, ao menos não em uma real, mas sim, em uma
plutocracia, na qual servimos de mão de obra e de ferramenta para a manutenção
do poder de uma aristocracia mercadológica, industrial, latifundiária, etc.,
que nossas necessidades são simplesmente ignoradas, quando não maquiadas por
assistencialismos que nos tornam eternamente dependentes da caridade do Estado. O contrato social,
assim como tantas obras magnificas, é depositário de perigoso conhecimento a
cerca de como deve funcionar uma democracia e é por esse simples motivo que em
nossas escolas não ouvimos se quer seu nome.
Somos uma republiqueta de bananas, governados por senhores
oligarcas que trabalham pelo sucesso individual e esquecem que o estado deve
agir para e pelo povo que o forma, somos geridos por um conjunto de déspotas,
que tomam os cargos públicos para si e enriquecem por meio destes, de forma
licita ou não, sua autoridade torna-se inquestionável, pelo simples fato de os
mesmos assim determinarem, não temos direito se quer de opinar naquilo que
atingirá nossas vidas, tudo isso por não sabermos como funciona uma república
democrática, quais os fundamentos da democracia, somos uma republiqueta de
bananas, principalmente, porque não lemos Rousseau.
(Segue link do livro em questão em PDF, para os interessados: http://lelivros.love/book/download-do-contrato-social-jean-jacques-rousseau-em-epub-mobi-e-pdf/)
Muito bom o texto meu caro!
ResponderExcluirMuito obrigado meu amigo.
ExcluirÓtimo texto, adorei.. Sou sua fã Aranduy
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