segunda-feira, 24 de dezembro de 2018


UMA CONVERSA SOBRE A IMIGRAÇÃO




Nos últimos anos o tema imigração tornou-se recorrente, sendo frequentemente abordado, seja em debates eleitorais, reuniões da ONU ou em mesas de bar e transportes coletivos, muitos olham com piedade para aqueles que buscam uma segunda chance em um país estrangeiro, enquanto outros tantos condenam sua inserção em seus países, realizando mesmo mobilizações para que seja evitada sua entrada, é dessa forma que duas das eleições (talvez) mais polêmicas do inicio do século XXI se deram, através da promessa de “tolerância zero” aos imigrantes ilegais e no desenvolvimento de políticas que dificultem a entrada de imigrantes.
Porém, os grupos e indivíduos que defendem tais políticas, ignoram alguns fatos bastante interessantes, que nos levam a questionar, se realmente, há uma razão, para odiarmos imigrantes.

A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA POBRE, CONTRA UM TIRANO.

Em uma noite quente, um homem trazia sua esposa, esta montada em um burro que era puxado por seu marido, a mulher trazia em seus braços uma criança recém-nascida, deixavam seu país de origem rumo outro país, não a passeio, fugiam das atrocidades de um tirano buscavam salvar a vida de seu pequeno filho, eram imigrantes, eram refugiados.
Apesar das adaptações, torna-se óbvio que o texto a cima trata da história da fuga para o Egito, empreendida por José e Maria, levando o pequeno menino Jesus, como é relatado no livro de Mateus: 2: 13 – 18, estes fugiam do então imperador romanos Erodes Antipas, que mandara executar todas as crianças com idade igual ou inferior a 2 () anos, com a intenção de evitar o surgimento do “rei dos judeus”, previsto pelas escrituras; a família sagrada passou vários anos ainda no Egito, retornando para Belém, na Judeia apenas após a morte de erodes. Este episódio da vida de Jesus pode inclusive ser visto como um exilio político de sua família, uma vez que para o imperador, era seu governo que corria perigo diante do nascimento de um novo líder judeu, que os uniria e s libertaria.
O povo judeu é também um outro ótimo exemplo de imigração, sua história é quase que unicamente sobre tal fenômeno, desde a saída em busca da terra prometida, a chegada ao Egito, sua posterior escravização, a fuga deste, o cerco de Jericó e etc., porém, existem fenômenos migratórios mais antigos, e que cremos, devem ser apresentados.

UMA ESPÉCIE DE IMIGRANTES

Yuval Noah Harari em seu livro, Uma breve História da Humanidade, nos apresenta alguns dados curiosos, como por exemplo, o de que a aproximadamente 2 milhões de anos, seres humanos se espalharam do continente africano (continente de origem desta raça) para a Eurásia, 500 mil anos atrás, na Europa e Oriente Médio, chegariam os Neandertais, a 200 mil anos surgia o Homo sapiens na África Oriental, a partir deste continente o sapiens iria se espalhar pelo mundo, povoando a Austrália a 45 mil anos atrás e a 16 mil anos os sapiens chegaram a América, talvez não tenha ficado suficientemente claro, mas os dados a cima apresentados, “sugerem” que o homem é uma espécie naturalmente migratória, e que sua história é baseada na imigração.

A FALÁCIA DA ESCARCES DE TRABALHO

Porém, para grupos anti-imigração, surgem alguns argumentos que legitimam seu posicionamento, tais como o fato de que, os imigrantes ao chegarem ao país de destino não abandonam sua cultura, mas a mantêm em lugar de adotar os hábitos locais, argumento com o qual concordo em gênero, número e grau, e o motivo é bem simples, mas para explica-lo é necessário retornarmos 500 anos na história, quando os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil, trazendo consigo seus hábitos e costumes (cultura) que não abandonaram, mas sim os impuseram à população local, fazendo-os adotar sua religião, sistema de trabalho, vestimenta entre outros, os colonizadores europeus não foram bravos desbravadores de um a terra inóspita, foram sim, imigrantes, que buscavam imprimir em terras estrangeiras e com um modo de vida estabelecido, o seu modo de vida, e isso não se resume ao Brasil, tal processo deu-se em todo o continente americano, além de vários países africanos e asiáticos. Outro argumento, este sendo bastante falacioso, o de que imigrantes tomam os empregos do nativos do local onde se instalam, este discurso surge com maior força durante a década de 1930 na Europa pré-segunda guerra mundial, através dos partidos fascista italiano e nazista alemão, como uma maneira de justificar a crise que eclodia no mundo todo, causando desemprego e miséria a milhões de pessoas, baseado em um discurso populista de nacionalismo, cria-se o mito do imigrante usurpador de oportunidades.



A realidade porém é bem diferente, os imigrantes não roubam trabalho de ninguém, muito pelo contrário, segundo artigo do New York Times de 22 de maio de 2015, a entrada de imigrantes tende a aquecer a economia, uma vez que estes precisam, comer, vestir, morar, utilizar transportes e etc., fortalecendo assim a economia interna do país em questão, sem falar que na grande maioria das vezes, estes são empregados em funções nas quais os habitantes locais muitas vezes não querem atuar, como limpadores de piscinas, jardineiros, faxineiras, babás, entre outras, pelo seu baixo nível de formação, enquanto que aqueles com maior escolaridade atuam como marceneiros, eletricistas, mecânicos, um outro fator que desmente este argumento é o fato de que, na maioria dos países, para atuar em uma determinada área profissional, é necessário possuir o credenciamento nacional, de modo que, um professor brasileiro não pode simplesmente entrar em Londres e atuar em sua área lá, antes é preciso revalidar seu diploma, processo burocrático que pode levar algum tempo, além de custar algumas boas libras, o mesmo vale para médicos, advogados, (todo país possui seu órgão equivalente a nossa OAB) arquitetos, engenheiros e por aí vai, o que refuta definitivamente este argumento, que não tem outra finalidade que não, a de impedir que imigrantes, principalmente refugiados, sejam aceitos no país destino.

PORQUE NÃO QUEREMOS OS IMIGRANTES, QUANDO SOMOS UM PAÍS DE IMIGRANTES?

A questão aqui não se trata de não aceitar imigrantes, mas sim de quais imigrantes aceitar, por exemplo: nos EUA pós 11 de setembro, a entrada de indivíduos provenientes de países do Oriente Médio, ou de países de religião islâmica tornou-se muito mais difícil do que costumava ser, e por motivos óbvios, isso dar-se-ia algum tempo depois também em vários países da Europa, como é o caso hoje da França, devido a ideia de que esses países eram, países terroristas, e não países que sofriam tanto como os demais com a existência de facções terrorista em seu território, de que o islamismo é uma religião de radicais, e não uma denominação que é, assim como tantas, afligida por membros radicais, de modo que desenvolveu-se um medo no consciente e inconsciente coletivo que legitimaria, a proibição da entrada de novos imigrantes árabes nos EUA assim como a perseguição àqueles que já se encontravam ali.

No Brasil a coisa é um pouco mais complicada, afinal, não sofremos nenhum atentado terrorista, não temos nenhuma relação de animosidade com qualquer das nações cujos cidadão buscam abrigo no país, como por exemplo, Haiti e mais recentemente Venezuela, qual então o motivo de tanta polêmica? São na verdade dois possíveis motivos, o primeiro é o da falácia da escarces do trabalho, ou seja, a ideia de que a entrada de imigrantes aumenta o desemprego da população local, como já foi apresentado anteriormente, uma parcela considerável da população acredita nessa ideia; o segundo possível fator, é o boa e velha discriminação tão presente na história do nosso lindo país, que gera uma xenofobia bastante atuante que nos impede de ver com o mínimo de empatia a situação daqueles que desesperadamente buscam abrigo nas terras tupiniquins.

Contudo, esse comportamento não é válido para todos os imigrantes, a coisa muda de figura dependendo das condições daqueles que buscam adentrar o país, se o imigrante em questão, for um dinamarquês que trás consigo uma quantia considerável de capital, o qual pretende investir em uma micro empresa, este será muito bem vido, porém, sendo um argeliano que foge dos conflitos de seus país, e vem com nada mais que o suficiente para manter-se durante um mês, as portas já se encontraram semicerradas para este, o mesmo pode-se se dizer de um pequeno proprietário holandês que mude-se para os EUA em busca de novos ares, e um colombiano que fuja das FARC. A xenofobia é seletiva e cruel.



As fronteiras nacionais assim como o dinheiro são criações humanas, abstrações às quais atribuímos valores, nenhum território no globo terrestre surgiu com delimitações geográficas naturais, a não ser vales desérticos, mares, montanhas e selvas, que ainda assim foram sendo transpostas de acordo com a necessidade humana, obviamente, a segurança de um povo e seu bem estar, estão em primeiro lugar (embora na maioria dos casos não pareça) porém, não parece justo negar aqueles que buscam uma nova oportunidade de vida, o direito de te-la, pelo fato de não serem naturais do país onde a buscam, negar àqueles que fogem do sofrimento provocado pela miséria e pela guerra, o direito de sentirem-se seguros em países um pouco mais estáveis que o seu de origem, virar as costas a quem precisa encarecidamente de ajuda, parece de uma crueldade que nem mesmo o homem deveria ser capaz de praticar.

É estranho ouvir pessoas que se dizem cristãs, defenderem a proibição de venezuelanos no brasil, ainda mais em vésperas do nascimento da entidade de maior importância de sua religião, ignorando completamente que Jesus Cristo foi também um imigrante, um refugiado, esquecendo que este é um país de imigrantes, onde africanos, trabalharam forçosamente, italianos ajudaram a construir a riqueza do café, portugueses desenvolveram diversos aspectos de nossa cultura, entre tantos outros povos, por que hoje, virar as costas para quem nos estende a mão em busca de socorro?        

sábado, 15 de dezembro de 2018


A ÉTICA POLÍTICA, E PORQUÊ NÃO CONSEGUIMOS PRATICA-LA


Nos últimos anos, a discussão em torno da corrupção, da defesa de um comportamento moral e ético no campo político têm alcançado enorme destaque na sociedade, não apenas brasileira, mas mundial, gerando polarizações que poderiam ser evitadas caso possuíssemos um comportamento político um pouco mais adequado, deixando de lado nossas paixões e interesses pessoais, e analisando a política de forma objetiva enquanto ciência, o que de fato esta é, porém não é o que ocorre, o que mais se busca no debate sobre tal campo é, o comportamento moral dos candidatos ou políticos atuantes, sua postura diante das polêmicas como aborto e legalização das drogas e etc., seu histórico passa muitas vezes despercebido (que o diga Fernando Collor de Melo) gerando uma sequência de enganos quase interminável, porém sempre buscando o perfeito sujeito ético que transformará a realidade.

De forma bastante resumida, de acordo com a Escola Clássica de Filosofia, a Moral seria uma forma de comportamento prático, cotidiano, e construído socialmente, enquanto que a Ética seria um conjunto de ideias que nos guia ao comportamento correto, sendo que, para se ter um comportamento moral ético, é necessário faze-lo pelo simples ato de faze-lo e não por persuasão ou coerção, um exemplo seria o cumprimento das leis: não dirigir alcoolizado por saber que é incorreto, e não apenas por medo das punições e/ou consequências que se pode sofre por tal habito.

Diante disso, surge um questionamento, existe ética na política? Ou o que viria a ser a ética política?

Para o filósofo chinês Confúcio, que viveu estima-se, no ano 550 a.C, a ética e apolítica caminham de mãos dadas, uma vez que para este, os cargos de diligencia (como referia-se aos governadores) estavam destinados aos homens sábios, indivíduos que dedicaram sua vida a aquisição de conhecimento, tornando-se assim homens éticos, uma vez que, para a filosofia clássica, tanto oriental quanto ocidental, há um consenso com relação a ideia de que a busca por sabedoria impulsiona os homens a uma vida de virtudes, e isso pode ser visto não apenas em Confúcio, mas também em Sócrates, Platão, Aristóteles e mesmo nos pensadores do iluminismo; Confúcio chamará este homem de “Homem Shu” ao passo que para Platão, este seria o Aristocrata[1], assim sendo, o governo estaria destinado a pessoas dotadas de razão, moral elevada e comportamento ético, preparadas para o momento em que lhes fosse requerido[2] assumir o cargo de dirigente, que pudessem colocar as necessidades do povo em primeiro plano.   

Tal pensamento será bastante semelhante ao do filósofo Francês do século XVIII, Jean Jaques Rousseau, em seu trabalho, O contrato social, no qual nos diz que, o soberano, ou seja, o sujeito que assume um cargo eletivo - no nosso caso um cargo no executivo - deve a princípio de tudo, no exercício de seu cargo, abrir mão de seus objetivos pessoais e assumir um compromisso inalienável com os interesses comunitários, (questão inclusive que é contemplada pela constituição brasileira de 1989) deixar de pensar no eu para passar a pensar “no nós” ou no eles, uma vez que este é um representante eleito das vontades e anseios do povo, e que a soberania, surge justamente através do povo de acordo com Rousseau.

A ética política pode ser resumida nessas palavras de Rousseau e Confúcio, porém sabemos que não é bem assim que as coisas se dão, mas o que impede que o soberano, no caso, um prefeito, um governador ou um presidente, ou mesmo os legisladores, vereadores, deputados e senadores comportem-se de tal forma?

Existem duas possíveis razões, a primeira delas é a de que nenhum desses se elege como um representante do povo como um todo, mas sim de algumas parcelas do mesmo, e essas parcelas podem ser dívidas em duas: sua base de apelo e os financiadores da campanha; a primeira pode ser composta por: uma determinada classe social, uma categoria profissional, uma denominação religiosa etc., esse será seu “público alvo” aquele a quem apresentará suas propostas com maior ênfase e a quem representará caso eleito; o segundo é composto basicamente por empresários que serão ainda mais representados que o primeiro grupo, por motivos óbvios, o segundo motivo vem a ser a corrupção, mal do qual, aparentemente torna-se quase impossível escapar, pelo simples fato da necessidade de apoio que os governantes precisam para por em prática ao menos dez por cento daquilo com que se comprometeram durante a campanha.

Mesmo aqueles que levantam a bandeira anticorrupção em maior ou menor medida não conseguem fugir da mesma, dado o fato de que em algum momento necessitará nomear ou fazer alguma aliança com algum acusado de desvio de verbas, caixa dois, superfaturamento de obras e afins, de modo que, atuar de maneira ética no campo político, muito mais que na esfera pessoal é de grande dificuldade, não se trata de algo impossível, apenas complicado de ser posto em prática, principalmente pelo fato de que, o presidente ou governador que tente realizar de fato um programa de governo que vise extinguir a corrupção, provavelmente encontrar-se-á em um enorme estado de solidão, uma vez que terá que perseguir uma parcela considerável daqueles que compõem seu governo. As alianças com indivíduos investigados, acusados ou mesmo condenadas em algum momento por atos ilícitos no exercício do cargo ocorrem principalmente pela necessidade de apoio no momento da aprovação de propostas de programas ou de projetos de lei, assim, um governante pode indicar um ministro, ou admitir um senador em sua equipe de governo, por este ser um grande articulador, em especial nos bastidores políticos, por ter uma ótima capacidade de persuasão ou aliciação de daqueles que votarão tais projetos, conquistando assim seu apoio e proporcionando a aprovação dos mesmos.

A falta de ética política não resume-se entretanto aos políticos profissionais, o eleitorado também comportar-se por vezes de maneira duvidosa, principalmente durante as campanhas municipais, onde o contato com os candidatos é mais direto, mais próximo, possibilitando assim a realização de práticas ilícitas com maior facilidade, como a compra e venda de votos; contudo, a ausência da ética dá-se também nas altas esferas eleitorais, quando o eleitor por exemplo vota em um candidato visando apenas o que este pode fazer por sua pessoa, pelo fato de suas propostas representarem interesses pessoais, pondo de lado e até mesmo ignorando completamente a forma como o programa de governo do seu candidato afetará de maneira positiva ou negativa o todo da nação nos mais variados aspectos.

É necessário, porém, frisar que nem todos os indivíduos que atuam de maneira mais direta na política são antiéticos e/ou corruptos, o que abordamos aqui é o fato de muitas vezes mostrar-se quase impossível para estes atuar de modo afastado dos que assim o são dadas as circunstâncias.

De forma resumida, diria que o comportamento ético na política assim como na vida pessoal, surge por meio do conhecimento, a partir do momento em que o sujeito trava um contato aprofundado com o significado dos termos, política, democracia e ética, quando passa a analisar a política de forma objetiva enquanto ciência como de fato deve ser, e não apenas como um jogo de troca de favores e conveniências, este passa a ter um comportamento muito mais apropriado eticamente falando. Este comportamento baseado na razão possibilita também que outro comportamento seja suprimido, a intolerância e a polarização política.

Diante de tudo isso, permanece a questão, existe Ética em nossa Política? 


[1] Aristocrata aqui no sentido etimológico do termo, significando um governo composto por indivíduos com uma boa formação educacional, capazes de interpretar os desejos e necessidades do povo, governando de forma ética e moral, bem diferente do significado que acabou tomando com o passar do tempo, que o descreve como nobreza, superioridade financeira e tradição familiar.
[2] Para Confúcio, não seria o individuo a buscar assumir os cargos de governo, mas sim a sociedade, o Estado que lhe requereriam, por isso este deveria estar preparado para caso esse momento chegasse.  

quarta-feira, 21 de março de 2018

Para não dizer que não falei de Marielle



Sinceramente, não tinha a menor intenção de escrever nada a respeito do caso Marielle, pelo simples fato de me enojar a prática de buscar audiência, plateia, através da exploração da desgraça alheia; mas chega um momento em que a necessidade de falar é muito maior que nossa capacidade de nos manter em silêncio.

Uma certa vez, em uma entrevista, questionaram o geografo e intelectual Milton Santos se era difícil ser um intelectual negro no Brasil, sua reposta foi: “é difícil ser intelectual no brasil, e é difícil ser negro no Brasil.”, esta resposta pode ser expandida, o que não é difícil para o negro, para o pobre, para o periférico favelado oriundo de escola pública no Brasil? Marielle foi mais uma vítima de uma da violência que se instala em nosso país, uma vitima que durante toda sua vida teve que lidar com todas as dificuldades de ser negro neste país, as dificuldades que passam todos os negros que não acomodam-se, que não obedecem a regra de que devem permanecer na pobreza, no analfabetismo e de preferência no anonimato. Marielle foi mulher, negra e política em um apaís onde em pleno século XXI, impera o pensamento retrogrado de que lugar de mulher é na cozinha, ou que, a única forma aceitável de uma mulher chamar atenção é por meio da exposição de seu corpo seminu ou nu, em programas de TV, em um país onde é mais aceitável que o negro que aparece na TV, seja o motorista da madame, a empregada da socialigth, ou mesmo o criminoso do núcleo favelado dos folhetins diários; Marielle era uma pedra no sapato, um incomodo para muitos acomodados que anseiam por manter tal estado de coisas, Marielle precisava parar de incomodar.

O racismo, o preconceito, a discriminação, são presentes em nosso país em praticamente todos os âmbitos, profissionais, familiares, religiosos...por que devemos negar? Seja com relação a etnia, a sexualidade, a classe social, somos uma nação segregada em tantos aspectos que seria muito cansativo enumera-los aqui, mas o caso de Marielle não reflete apenas o racismo, ou o preconceito, ou a discriminação, sua execução trás a tona o tipo de país em que nos transformamos no últimos 30 anos, um país de ódio, de segregação, não de um povo estrangeiro, mas do próprio povo brasileiro.

Muitos foram aqueles que tentaram denegrir a imagem da quinta vereadora mais votada no país após seu falecimento, associaram-na a traficantes, envolveram-na com o crime organizado, comemoraram sua morte, por que? Por ser negra? Por não se deixar comprar pela corrupção que devora nossa democracia? Por lutar pelos direitos dos homens e mulheres negros desse país? Ou pura e simplesmente pelo ódio e rancor que brota cada vez mais fundo no coração dos indivíduos desse país contra tudo aquilo que não condiz com suas ideologias, doutrina e convicções? Marielle foi executada de forma brutal, o que demonstra que ainda hoje estamos sob o domínio das oligarquias, sob o domínio da selvageria institucionalizada daqueles que são acobertados por cargos de poder, por influências nos mais altos escalões do comando nacional, dos que têm em suas mãos, todas as facilidades que o dinheiro sujo pode comprar.

Marielle não foi uma mártir, pois os mártires, desejam a morte, buscam-na, enquanto aquela buscava a vida, uma vida decente para os brasileiros descamisados, sem voz, uma vida construtiva e cooperativa entre brasileiros, independente de sua origem étnica, sexo, religião, era alguém que queria viver para à seu modo contribuir para uma política ética, para e pelo povo brasileiro, e a exemplo de tantos outros foi tirada do caminho com a ferocidade e rapidez de sempre, foi como Ulisses Guimarães, como Teori Zavasck, como Marcos Freire entre tantos outros que ameaçavam o conforto ilícito de uma minoria brasileira habituada a enriquecer por intermédio de uma política que não passa de um jogo de cartas marcadas, onde quando um novo jogador ameaça ganhar, rapidamente é eliminado; e é muito possível, que assim como os a cima citados, a morte de Marielle torne-se mais um enigma insolúvel na história deste país.

O caso Marielle vai muito além de um caso de racismo, vai muito além da morte de uma mulher negra, que como seus detratores disseram, ocorrem centenas todos os dias em todo o território nacional (e ninguém se importa), o caso Marielle representa a materialização da podridão política que tem se desenvolvido em nosso país, representa a prática de uma tese política da qual acreditávamos termos nos livrado, a eliminação à força de todo aquele que se opõe a uma força dominante e prevalecente. Mas é chegado o momento de exigir mudanças, não apenas mudanças políticas ou partidárias através do voto, mas mudanças éticas através de nossas ações enquanto pessoas, não podemos permitir que tais casos tornem-se rotina, pois é o que acontecerá, se não houverem cobranças de esclarecimento e punição dos culpados, os coronéis e seus capangas finalmente abandonarão sua pose discreta e reassumirão a velha personagem, autoritária e violenta dos anos 30, acompanhados claro, de seus capangas.

não podemos permitir que seu esforço passe em branco, assim como tantos outros lideres, Marielle Franco doou sua vida (não por meio de sua morte, mas por meio de sua luta) à uma luta por milhares de brasileiros humilhados e esquecidos, como Martin Luther King, como Angela Davis, como Malcolm X, Marielle foi e será sempre um símbolo de luta, mas os símbolos não se mantem de pé sozinhos, é necessário que nós, façamos o que for preciso para sustenta-los. vamos à luta!

quinta-feira, 15 de março de 2018

Não percebemos a revolução da máquinas


Em 1865 Júlio Verne lança o que em minha opinião foi o primeiro livro de ficção cientifica da história, Da Terra a Lua, narrando uma incrível viagem ao nosso satélite natural, influenciando pesquisadores do século posterior a se empenharem para tornar realidade os sonhos de Verne, talvez sem perceber, estava dando origem a um novo gênero literário que dominaria durante bom tempo a mente e o gosto literário das pessoas.

Em 1984 estreava nos EUA o clássico O exterminador do futuro, no qual um ciborgue vinha do futuro para matar um garoto que criaria um computador tão potente e inteligente que acabaria por dominar o mundo, povoando-o com milhões de outras máquinas que escravizaria a humanidade; em 1999 é lançado o primeiro filme da trilogia Matrix, no qual o mundo não passa de uma simulação virtual para distrair o seres humanos, enquanto estes permanecem em uma espécie de coma induzido servindo de combustível para aquelas.

Para muitos a ficção cientifica não passa de uma literatura fantástica, de cunho sensacionalista, destinada a adolescentes, mas tal visão pertence às mentes pequenas, pois em muitos momentos esse gênero literário já se provou como fonte de inspiração, para o desenvolvimento de vários artefatos tecnológicos, tais como os aparelhos celulares, as vídeo conferências entre outros, Isaac Asimov em sua vasta obra prova o contrário, quando determina quais serão as leis da robótica, leis que hoje estão em prática na pesquisa e desenvolvimento de projetos de inteligência artificial; como já disse o vocalista da Nação Zumbi, Jorge do Peixe: "a ficção cientifica é nossa literatura de ideias", e mais uma vez, esta acertou no que propôs, mas pelo menos por enquanto, sem dizimação da raça humana. 

A muito se fala a respeito do tema, dominação das máquinas, e do medo que o mesmo gera nos seres humanos, tememos o futuro, por não saber o que nos aguarda, mas é possível que seja também pelo que fazemos do presente. O que quase ninguém percebe é que o futuro já chegou e que já somos dominados pelas máquinas, estamos alienados em um mundo virtual, a distopia já começou.

Quantos de nós ao acordar abrimos uma janela e comtemplamos o dia que nasce? Quantos de nós aproveitamos dos primeiros raios de sol para fazer uma caminhada ou correr? Claro que existem pessoas que o façam, mas são minoria já que principalmente nas grandes cidades, as pessoas já acordam conectadas, para muitos a primeira atitude do dia é tomar o smartfone ou tablete nas mãos e conectar-se a rede para ver o que ocorre no mundo por meio das redes sociais, ou simplesmente para postar que acordou, tirar uma self escovando os dentes ou indo para o banho (ambas, atitudes de péssimo gosto), enquanto ignoramos a pessoa que acorda ao nosso lado, não nos dignamos nem mesmo a desejar um bom dia.

As máquinas tem se tornado cada vez mais inteligentes e se mostrado cada vez mais necessárias, é culpa dos aparatos tecnológicos então nossa alienação? Não, pois por mais “espertas” que se mostrem, ainda são apenas “brinquedos” tecnológicos, já seus fabricantes tem uma grande parcela de culpa. O trabalho de inovar cada vez mais rápido os aparelhos eletrônicos, torna-los cada dia mais interessantes, de lançar campanhas publicitárias emocionantes que faça com que o espectador, leitor ou ouvinte sinta-se compelido a comprar é a especialidade das empresas que competindo entre si no mercado capitalista estimulam o consumismo em pessoas avidas por participar de grupos; por outro lado, os consumidores são também grandes responsáveis, ávidos  pelo reconhecimento público de sua inserção no  modus vivendi da moda, os leva a consumir desenfreadamente todo tipo de aparatos tecnológicos, dos quais muitas vezes não precisam tanto, mas sem os quais não se veem vivendo, em suma, não são vítimas, mas sim cúmplices, de uma invasão e dominação que acontece de forma acelerada.

Não culpo os avanços tecnológicos, principalmente por ser um usuário destes, afinal não escrevo estas linhas em uma máquina datilografa; culpo os seres humanos e sua incontrolável sede de pertencer, pois não há outro motivo para desenfreado consumismo que não seja o medo de “estar por fora”, é por tanto medo que passamos quase que 24 horas do dia conectados com gente que está a quilômetros de distância de nós enquanto não percebemos quem está ao nosso lado, fazemos isso porquê, afinal, todos fazem, e se todos fazem, “eu também o tenho que fazer”.

Além do consumismo, outro fator é preponderante nesta situação, a sede e a fome de informação, informação sem o menor conteúdo, sem a menor importância, a necessidade de fugir da realidade, apoiando-se em vidas virtuais repletas de glamour e exuberância, é em busca desta dose diária de ópio que não largamos os smartphones, tablets  e afins, seguindo estrelas da TV, cinema, da música ou mesmo celebres desconhecidos, buscando tirar uma fatia de suas vidas tão invejáveis antes de retornar para nossas vidas tão desinteressantes, tão comuns, dessa forma vamos nos entregando, a app’s  que se propõem a solucionar praticamente todos os problemas que permeiam nosso cotidiano, nos indicam rotas a seguir, a hora de comer, como dormir, quanta água beber, quando fazer exercícios, e assim, cada vez mais nos afundamos em uma realidade virtual, nos induzimos a um coma acordado, nossos olhos enxergam muito mais as telas mínimas de nossos aparelhos portáteis que a imensidão que nos cerca, percebemos muito mais facilmente os problemas no funcionamento dos aplicativos e redes sociais, na falta de cobertura wi-fi, no fim dos dados móveis, que os problemas de nossa sociedade, segregamos nossas comunidades, entre aqueles que possuem e não possuem acesso às tecnologias.

A dominação não veio forçada, foi oferecida e aceitamos de bom grado, não foi através das armas, mas sim com convites requintados, aos quais nos dobramos. Não é muito diferente do que fazem os países imperialistas com os de 3° mundo, lindas palavras, belas propostas, até que quando são aceitas, invadem a vida dos mesmos de forma violenta, e quando por fim nos damos conta do que aconteceu, é tarde demais para voltar atrás.

A tecnologia veio para nos auxiliar, para tornar mais fácil nossa vida, mas nosso comodismo nos tornou dependentes da mesma, escravos presos por grilhões invisíveis de extensão sem limites, somos monitorados onde quer que estejamos, e o pior, por nossa própria escolha. Não precisamos temer o futuro,  a revolução das máquinas já começou, a mais ou menos duas décadas e meia, nós simplesmente estávamos ocupados de mais nos maravilhando com ela para perceber.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O difícil é "adultescer"


Durante a infância, desejamos com todas as forças a chegada de um momento, a vida adulta, em nossos devaneios esse será o momento mais fantástico de nossas vidas, acreditamos piamente que este momento significará, liberdade.
Quando crianças acreditamos que na vida adulta poderemos fazer o que quisermos, dormir a hora que quisermos, acordar a hora que quisermos, sair para onde quisermos, comer o que bem entendermos, comprar aquilo que desejarmos, vestir o que der vontade, e principalmente, não ter que dar mais satisfações a ninguém, é só ao chegar a esta idade tão aguardada que percebemos o quanto iludidos estivemos durante toda a infância e adolescência.

A vida adulta pode ser resumida em três palavras: trabalho, responsabilidade e sacrifício. Comecemos pelo trabalho, assim que atingimos a maior idade sofremos rapidamente a pressão para conseguirmos um emprego, afinal de contas não somos mais crianças, temos que começar a arcar com nossos gastos, o emprego é nossa inserção no mundo real, pois até então, vivíamos a margem do mesmo, éramos apenas organismos vivos transitando a esmo, ocupando espaço, mas ao entra no mundo do trabalho, tornamo-nos dígitos e então adquirimos importância, somos agora uma razão social, somos contribuintes, somos consumidores, somos o número de uma conta no banco, somos a numeração de um cartão de crédito, somos geradores de riquezas, somos endividados. O trabalho por sua vez acarreta em responsabilidades, deveremos neste, cumprir horários, atingir metas, realizar tarefas repetitivas, usar roupas bregas, quando não uniformes, e em hipótese alguma faltar, afinal outras pessoas dependem de nosso desempenho, e haverá um chefe, um gerente, um supervisor, um gestor, que estará sempre na nossa cola, exigindo de nós os melhores resultados uma vez que o seu desempenho depende do nosso. Estes dois pontos desembocam no terceiro, pois somos levados a sacrificar tudo aquilo que gostaríamos de fazer em detrimento daquilo que temos que fazer, passamos a “dormir com as galinhas” mesmo sem que ninguém nos mande para a cama, uma vez que acordamos com “o cantar do galo“, deixamos de sair pois no dia seguinte trabalhamos, não compramos mais o que queremos mas sim o que é necessário, e principalmente, quando temos alguém conosco, deixamos de pensar em nós e pensamos no outro. Assim é a vida adulta.
Pode parecer tudo muito ruim, mas a verdade é que tornar-se adulto não esse terror que aparenta. A vida adulta traz consigo diversos fatores não muito desejáveis, mas estes fatores trazem consigo consequências ótimas que nem sempre percebemos. Primeiramente, aprendemos a valorizar o que realmente importa, entendemos que dinheiro não nasce em arvores e que suamos muito para ganha-lo e por isso não gastamos mais com tanta rapidez quanto antes, desenvolvemos uma habilidade fantástica para solucionar problemas a ponto de nos sentirmos como super-heróis, e é justamente isso que nos tornamos para aqueles que estão a nossa volta, aqueles que contam conosco nos momentos difíceis, e nos encaram com admiração, alegria e respeito a cada desafio superado, a vida adulta nos ensina que cada momento é importante, principalmente quando passado do lado das pessoas certas, e que muitas vezes as pessoas certas são aquelas de quem durante a adolescência mais tentamos nos afastar, mas principalmente, a vida adulta nos amadurece, nos torna melhores, mais comedidos, reflexivos sobre nós mesmos e o mundo a nossa volta, nos faz enxergar tudo de forma bem mais nítida que antes, em suma, tornar-se adulto é difícil, mas quando finalmente conseguimos, é extremamente compensador.

“adultescer” pode parecer um bicho de sete cabeças, mas na verdade, é a melhor faze de nossa vida quando aprendemos a vive-la, dificuldades vem sempre, mas aprendemos a vence-las, e mesmo que não possamos sempre comprar o que queremos mas sim o que precisamos, há sempre uma chance ou duas de comprar um novo jogo ou de comer uma maçã do amor.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

As utopias estão morrendo

Ilustração de A Utopia de Thomas Morus 1518

As utopias estão morrendo, década a década vão esmorecendo, agonizando e finalmente dando o suspiro final; o pensamento coletivo, a preocupação com o todo, estão saindo de sena e dando lugar a um personalismo, egocentrismo, individualismo que não permite que pensemos no outro, no próximo, no irmão ou como quer que chamem, o máximo que temos é a simpatia por pequenos grupos que aceitam nossas ideologias, nossas crenças, nossas convicções, se estes estiverem bem, ótimo, então estará tudo bem.

Segundo o dicionário Scottini de língua portuguesa, utopia significa: fantasia, irrealidade, quimera, sonho, devaneio; em sua obra de mesmo nome Thomas Morus descreve Utopia como o nome de um pequeno país fictício onde se havia alcançado um grau elevado de igualdade, justiça e democracia, onde a aquisição e acumulo de riquezas deixara de ser o objetivo final do Estado, dando lugar a conquista da felicidade e bem estar de seus habitantes, hoje, infelizmente, o termo tem a penas a conotação descrita pelo dicionário. Em vários momentos da História da humanidade o pensamento coletivo foi o motor para as realizações; durante o renascimento, pensou-se em como através da influência da cultura clássica o homem poderia alcançar um maior nível de conhecimento, de aprimoramento intelectual, de abandono das antigas superstições e como resultado, poderia construir uma sociedade melhor, cientificamente avançada, conhecedora de si mesma; seguindo os mesmos passos, mas aperfeiçoando-os, o iluminismo propunha uma sociedade esclarecida, onde toda e qualquer medida passaria pelo crivo popular, que dotado de conhecimento tomaria em suas mãos as rédeas do destino coletivo, novamente proporcionando igualdade, três séculos e meio mais tarde, a contra cultura pediria pelo fim das guerras e sugeriria uma sociedade irmanada, onde homens, mulheres e crianças independente de nacionalidade ou etnia, tivessem uma vida harmônica entre si e com o mundo, tendo as mesmas oportunidades. Infelizmente, todas essas ideias tem se perdido no que Bauman chamou de modernidade liquida, uma sociedade onde tudo torna-se cada vez mais efêmero, desimportante ao passo que se torna antigo, onde a única coisa que permanece é o pensamento no eu.

Em nossa atual sociedade (falo aqui de sociedade global, e não apenas brasileira) o pensamento coletivo, o bem mutuo, tem dado cada dia mais, lugar a um individualismo egocêntrico, no qual não há espaço para pensar no que seria melhor para o todo, o que mais se aproxima disso, é a formação de pequenos grupos organizados ou não, que identificam-se politica, ideológica ou religiosamente. Indivíduos que enxergam a intervenção militar no governo, a privatização, ou a diminuição do estado como soluções para os problemas, reúnem-se em uma micro comunidade, sujeitos que aprovam a reforma agraria, a melhor divisão de riquezas, e maior investimento em saúde, educação e segurança públicas em uma outra micro comunidade, e aqueles que se encontram no meio termo, em mais uma, mas ambas tem algo em comum, todas creem veementemente que são portadoras da verdade absoluta e que as demais representam o que há de mais execrável, social, politica e ideologicamente falando.

Estes três grupos, auto definem-se como sendo, direita, esquerda e centro, nesta ordem, cada um com seu plano mágico de salvação da pátria. Nos últimos 15 anos, com a explosão das redes sociais, assim como de canais de streaming que permitem a produção de conteúdo pelo próprio público, surgiram diversas personagens que defendem de forma aberrante seus posicionamentos políticos, na grande maioria das vezes por meio de insultos direcionados àqueles que não comungam de suas ideias, estes sujeitos fazem bastante sucesso na rede e são vistos por muitos como formadores de opinião. Não há problema algum em expressar suas opiniões e defender suas convicções, mas há um equivoco muito grande em não perceber a realidade.

 Enquanto estes grupos digladiam-se em nome de uma suposta esquerda mortadela, de uma direita coxinha ou de um centro (ainda sem um prato favorito eleito), não percebem que todas essas denominações ou orientações comem no mesmo prato e dormem na mesma cama. A pelo menos 20 anos, não temos mais uma definição prática do posicionamento dos partidos políticos e de seus membros, e a prova cabal disso, foi a aliança Dilma Temer, a coligação PT/PMDB, dois partidos teoricamente antagônicos, esse é apenas o exemplo mais conhecido, casos semelhantes ocorrem com frequência no jogo político-partidário, e qual o elo de ligação entre dois partidos historicamente rivais, o que motiva que façam uma aliança tão inimaginável? Simples, a perpetuação no poder. Segundo José Carlos Cardoso, Mestre em direito pela universidade Gama Filho- RJ, em sua obra, A fidelidade partidária: “No que se refere às ideologias políticas, não existe comprovação definitiva de sua validade; sendo, no entanto, inegável reconhecer-se que ela não acaba, mas transfere-se de área em função do momento político.”, em uma palavra, a ideologia político-partidária é uma ferramenta a ser utilizada de acordo com a necessidade, então, mesmo sendo uma aberração da natureza política, alianças entre partidos rivais acontecem de forma natural, de acordo com as necessidades e ambições que o momento político proporciona.  Enquanto os legisladores encontram-se na calada da noite para tratar de acordos sigilosos que beneficiam apenas a si próprios, ou as classes que representam (em geral o latifúndio, os bancos, o mercado e a indústria), enquanto todas as ideologias políticas aliam-se para chegar a um denominador comum (no caso, a perpetuação no poder) a população segrega-se de forma automática, defendendo partidos que na verdade são simplesmente faces diferentes de uma mesma moeda, e políticos de estimação que estimam somente o enriquecimento pessoal, desse modo, cada um defende o plano de governo, a emenda à constituição, o projeto de lei que beneficie o seu próprio grupo de Whatapp, os seguidores de sua página de facebook ou os inscritos em seu canal do youtube, desconsiderando o enorme contingente que será direta ou indiretamente prejudicado pelos mesmos.

As utopias estão morrendo, os países estão dividindo-se em seu próprio interior, cada pessoa quer saber apenas de si, cada grupo luta apenas em beneficio próprio, ao passo que a sociedade no geral está entrando em colapso, financeiro, político e social, mas nós não percebemos, pois estamos ocupados demais trocando insultos nas redes sociais, tentando provar sem base alguma, o quanto a nossa crença é superior, o quanto Von Misses, Carl Marx ou Adam Smith estão incontestavelmente corretos em suas teorias, em discursos que tem unicamente como efeito, desviar nossa atenção do que realmente importa, o bem comum.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"O lobo" quer sair da toca

Tramita no congresso um projeto de lei que visa tornar profissão legal, a atividade de lobista, o projeto de lei é de autoria do deputado Carlos Zarattini (PT-SP).
Mas afinal de contas o que é o lobby (ou em português, lóbi), e em que acarreta a aprovação deste projeto? 

O lobismo é uma atividade já bastante antiga e realizada com bastante frequência, não apenas em nosso país como em vários outros, inclusive sendo uma atividade profissional reconhecida nos Estados Unidos da América, tendo sido exercida por nada mais nada menos que 12,4 mil indivíduos no ano de 2012. De origem inglesa, o termo lobby significa, antessala ou corredor, lobbyng no caso seria a atividade de relacionar-se com pessoas nesses ambientes, no caso da política, as antessalas e corredores parlamentares. De forma resumida, o lobby é a atividade de influenciar de forma ostensiva  as tomadas de decisão de um determinado grupo ou setor político, e se dá principalmente no setor legislativo (câmara dos deputados e senado federal) já que este é o setor que propõe e aprova ou não leis, medidas provisórias e emendas constitucionais. O que os lobistas fazem é tentar influenciar os membros destas casas a votarem em projetos que favoreçam seus clientes, ou que prejudiquem os concorrentes daqueles, para conseguir a adesão dos votantes, e fazer com que arregimentem mais votantes favoráveis á “causa”, lógico, o lobista em questão deve ser muito persuasivo, e que melhor maneira para fazer alguém aderir aos seus interesses que lhe pagando para tanto? De forma resumida, o lobby nada mais é do que a compra de votos na mais alta esfera da politica, estima-se que no ano de 2012 tenham sido movimentados cerca de 3,3 bilhões de dólares na atividade nos EUA.

Vivemos em um país em que a corrupção orbita nas mais variadas esferas sociais, não é de hoje que se fala isso, a aprovação desta medida agirá como uma legitimação das atividades ilícitas já praticadas em nosso país por aqueles que teoricamente nos representam, aprovar esta atividade é o mesmo que ao invés de punir o ladrão ou o homicida, transformar seus crimes em atividades legais, não sendo uma atividade trabalhista reconhecida esta prática já causa tremendo prejuízo ao povo brasileiro, uma vez que, são as grandes corporações financeiras, mercadológicas, industriais, latifundiárias e multinacionais quem financiam esta atividade em beneficio próprio. 

Apenas a nível de informação, nos Estados Unidos da América, apenas o setor farmacêutico, chegou a gastar 234 milhões em lobby no ano de 2012, não é de se admirar que sejam aprovadas pelo senado federal norte-americano, por exemplo medidas que que objetivam aumentar em quase 200% valores de medicamentos de uso continuo, gerando um absurdo lucro para as empresas e seus associados, ao passo que condenam milhões da habitantes do país a morte, a menos que estes tenham fundos suficientes para arcar com tal despesa (a respeito deste assunto em particular, assistam ao terceiro episódio da série documental da Netflix, na rota do dinheiro sujo).

A regulamentação do lobby é o primeiro passo para que a corrupção deixe de ser vista como crime, e assuma caráter legal, não será mais necessário marcar encontros noturnos em lugares reservados, a compra dos votos, o financiamento de campanhas, a troca de favores, tudo acontecerá à luz do dia, nos gabinetes oficiais, talvez até mesmo com direito a transmissões ao vivo quem sabe, a legalização de tal atividade medíocre, é a primeira pá de cal no sepultamento da democracia e da justiça brasileira.

Somos uma "republiqueta de bananas", só porque não lemos Rousseau

Somos uma republiqueta de bananas, como disse o escritor norte-americano William Sydney Porter, mais conhecido com O. Henry em seu conto, O Almirante de 1994, principalmente porque não lemos Rousseau. Mas qual a relação entre uma coisa e outra? É bem mais simples do que parece.


Em sua obra, O Contrato social de 1762, Rousseau, um dos um dos mais importantes pensadores políticos e sociais do iluminismo, nos apresenta à sua visão do que seria a democracia real, (grifo nosso); real pelo fato de sugerir a forma como deveria funcionar o estado democrático para ser considerado verdadeiramente como tal. Neste ensaio, o autor apresenta vários princípios que caracterizariam uma democracia, entre estes estão dois que considero fundamentais, o primeiro é o de que o governante (prefeito, governador e presidente em suas devidas instâncias), deveria abandonar a primeira pessoa do singular em favor da primeira ou terceira do plural, em suma, deveria parar de agir e pensar no eu, e passar a pensar e agir no nós ou no eles enquanto exercesse a função de representante do povo, esquecer seus propósitos e planos individuais e pensar no coletivo, uma vez que o Estado seria a representação da vontade e das necessidades da coletividade e por isso, deve funcionar por meio do povo e para o mesmo, e não como um meio de se atingir objetivos particulares. O segundo principio apresentado pelo autor é o de que a democracia só é real, quando o povo participa de forma ativa em todos os processe ocorridos no estado, ou seja, todos os projetos de lei, as emendas à constituição, entre outros, deveriam passar pela avaliação popular, e não passando por seu crivo, não serem aprovadas, isso se daria por meio da realização de plebiscitos, como por exemplo os ocorridos para aprovação do Acordo de Livre Comercio das Américas (Alca) ocorrido de 1 a 7 de setembro de 2002, ou do estatuto do desarmamento, realizado em 23 de outubro de 2005, evitando que a população do país em questão, seja prejudicada por leis injustas, e que setores como o mercado e a indústria, ou mesmo pessoas físicas se beneficiem em detrimento de outras classes da sociedade.
Obviamente, nosso modelo de “democracia” funciona de modo bem diferente do proposto por Rousseau, e não apenas a nossa, mas a de vários países mundo a fora, nosso modelo se resume a uma mínima participação OBRIGATÓRIA, nas eleições e ponto final, onde geralmente e quase invariavelmente, elegemos indivíduos e grupos que não representam nossos interesses, mas esse é assunto para outro artigo; estes indivíduos são incumbidos da responsabilidade de propor e aprovar ou rejeitar projetos de lei, sem nem ao menos realizar pesquisas visando, analisar o percentual de aceitação dos mesmos, em sua maioria, estes projetos beneficiam a indústria, o mercado, o latifúndio, ao passo que agride direitos conquistados num longo período de lutas, e geralmente nos mantemos bastante acomodados diante de tal fato, excetuando-se algumas manifestações que são desacreditadas e deslegitimadas pela grande mídia, não entendemos que, cada ação que vise modificar o modo como funciona a sociedade nos atinge direta ou indiretamente e que justamente por isso deveríamos participar de toda e qualquer tomada de decisão, mas nos abstemos, só assim, podemos culpar o outro por o que quer que venha a dar errado, nada é culpa nossa. Nesse ponto, lembro me de Immanuel Kant, e sua tese da menor e maior idade intelectual, segundo a qual, através do conhecimento crescemos enquanto pessoas e consequentemente, passamos a assumir responsabilidade por nossas escolhas e atos; justamente por não termos o conhecimento como algo natural a nós, por vermos o conhecimento como um privilégio, é que nos encontramos na atual situação.
Ler O contrato social simplesmente, com certeza não resolveria nossos problemas, não sanaria nossas mazelas, mas sem sombra de dúvida nos esclareceria sobre os meios por meio dos quais poderíamos fazê-lo. Ter conhecimento a cerca do real sentido do conceito de democracia nos faria perceber que não vivemos em uma, ao menos não em uma real, mas sim, em uma plutocracia, na qual servimos de mão de obra e de ferramenta para a manutenção do poder de uma aristocracia mercadológica, industrial, latifundiária, etc., que nossas necessidades são simplesmente ignoradas, quando não maquiadas por assistencialismos que nos tornam eternamente dependentes da caridade do Estado. O contrato social, assim como tantas obras magnificas, é depositário de perigoso conhecimento a cerca de como deve funcionar uma democracia e é por esse simples motivo que em nossas escolas não ouvimos se quer seu nome.


Somos uma republiqueta de bananas, governados por senhores oligarcas que trabalham pelo sucesso individual e esquecem que o estado deve agir para e pelo povo que o forma, somos geridos por um conjunto de déspotas, que tomam os cargos públicos para si e enriquecem por meio destes, de forma licita ou não, sua autoridade torna-se inquestionável, pelo simples fato de os mesmos assim determinarem, não temos direito se quer de opinar naquilo que atingirá nossas vidas, tudo isso por não sabermos como funciona uma república democrática, quais os fundamentos da democracia, somos uma republiqueta de bananas, principalmente, porque não lemos Rousseau.
(Segue link do livro em questão em PDF, para os interessadoshttp://lelivros.love/book/download-do-contrato-social-jean-jacques-rousseau-em-epub-mobi-e-pdf/)

Doses cavalares de remédios amargos

Nos últimos dois anos, assistimos serem tomadas uma serie de medidas no mínimo surpreendentes, em sua maioria com o objetivo de recuperar a economia nacional, tendo em vista tal ponto, foi realizada a reforma trabalhista, que em suma, trata de diminuir os vínculos entre empregador e empregado, retirando a responsabilidade do primeiro em assumir todos os compromissos implementados pela legislação trabalhista a aproximadamente cinco décadas com o segundo; vimos também ser aprovada a PEC dos gastos, que como o nome propõe, reduz os “gastos” com saúde, educação e segurança pública e vimos ser proposta a reforma da previdência, que de forma resumida, aumenta o tempo de trabalho e contribuição do trabalhador para que tenha direito ao beneficio.

Mas em ano de eleições, surge um novo projeto, desta vez sob forma de decreto presidencial, e como tal, deve ser votado pela câmara dos deputados e pelo senado federal em caráter de urgência; é a proposta de intervenção federal na cidade do Rio de Janeiro. A violência no Estado do Rio é aberrante, todos sabemos disso, e sabemos também que não é um fenômeno recente, a formação das favelas cariocas e posteriormente o surgimento de facções criminosas nas mesmas vem de décadas, a produção nacional Cidade de Deus de 2002 de direção de Fernando Meirelles e Kátia Lund apresenta bem o panorama da formação das comunidades e do surgimento e desenvolvimento do crime nas mesmas, mas para quem não viu ou não entendeu, resumirei o processo: Existe um grande contingente de pessoas sem moradia própria e sem a menor perspectiva de adquirir uma pelos meios convencionais, financiamento ou uma compra direta, essas pessoas estão vivendo em cortiços pelo centro da cidade ou bairros satélites do mesmo, o que contrasta bastante com o senário de desenvolvimento que tais áreas devem ter nas grandes cidades, repletos de lojas, bancos e etc., como resolver então o problema? Simples, a construção de casas populares, as famosas cohabs, que são sempre localizadas longe o suficiente para não interferir de forma direta na infraestrutura urbana, geralmente, no ato da entrega das casas a seus moradores, esses novos bairros são desprovidos ainda de, escolas, postos de saúde e principalmente, segurança pública, afastados dos grandes centros e sem a mínima intervenção do Estado, tornam-se rapidamente um chamariz para atividades criminosas, que infelizmente, tendem a crescer, essa é a história resumida de ao menos duas comunidades carentes brasileiras, a já citada cidade de Deus no Rio de Janeiro e a Ceilândia no Distrito Federal.

Pois bem, como sabemos, onde o estado é ausente alguma outra forma de poder tende a assumir seu lugar, e aqui, lamentavelmente foi o crime quem assumiu tal posto; a intervenção é ruim? Bem, não temos como saber ainda, mas levando em consideração métodos semelhantes utilizados anteriormente, podemos realizar uma prospecção, se não, ao menos imaginar um cenário hipotético. Em 2008 teve inicio o processo de pacificação das favelas do Rio, centenas de policiais equipados com armas de grosso calibre, em tanques de guerra entraram nas comunidades com o intuito de expulsar os criminosos, prende-los ou mata-los, a intenção parecia boa e a causa era nobre, mas infelizmente as coisas não saíram como se esperava, rapidamente começaram a surgir informações de que policiais estavam cometendo excessos, invadindo casas de moradores além de agredi-los, (sem falar nas baixas de civis que foram atingidos pelo fogo cruzado) posteriormente veio a público o fato de que as áreas que foram “liberadas” do domínio do tráfico eram agora controladas pelas milícias.

A famigerada ideia de uma intervenção do exercito nas favelas não apenas do Rio, mas no restante do país não é uma invenção de Michel Temer, já a pelo menos uma década se discute isso, mas por questões orçamentárias, de opinião pública ou mesmo de logística a ideia vinha sendo deixada de lado. Segundo cientistas políticos, esta medida é uma forma de ganhar aceitação entre o eleitorados em vésperas de eleição, tudo não passaria de uma manobra engendrada diante do visível fracasso em implementar a reforma da previdência, como mexer no bolço do brasileiro não causou o efeito esperado, o cada dia mais animado com uma utópica reeleição, Temer, buscou atiçar aquilo que mais toca o povo brasileiro, o medo.

É possível que essa medida traga resultados, mas segundo especialistas do setor de segurança, esta não passaria de um paliativo, traria resultados rápidos assim como foi o caso da pacificação ocorrida entre 2008 e 2012, onde após pouco tempo a situação retrocedeu para o que infelizmente é o normal em tais comunidades, qual seria então a solução para o problema de segurança nessas localidades? Simples, a participação do estado. Sem sombra de dúvidas, realizar tal empreendimento será bem mais trabalhoso do que é sugeri-lo, mas é provavelmente o que mais chances de sucesso pode ter, se estas comunidades tiverem um apoio de segurança constante, com delegacias ou subdelegacias constantemente em funcionamento, escolas dentro da própria comunidade oferecendo atividades diversas aos educandos, postos de saúde ou UPA’s funcionando diuturnamente, entre outras instituições, proporcionando um trafego de pessoas constante, além de um comércio ativo e de opções de lazer que convidem os moradores a frequenta-las, não haverá mais espaço para a criminalidade, se o estado proporcionar o surgimento de oportunidades de vida digna para os moradores das favelas, mão haverá motivos para se deixar seduzir pelo crime.

Enquanto não tratarmos da maneira correta, o problema, este nunca deixará de existir, pode sair de cena durante algum tempo mas logo voltará a atormenta-nos, enquanto não dermos condições de vida digna ao nosso povo, nosso exercito permanecerá travando guerra apenas contra seus irmãos compatriotas, milhares continuarão morrendo entre culpados e inocentes, e o crime permanecerá prevalecendo. Enquanto não aprendermos eliminar eficazmente nossas mazelas, continuaremos tomando sem resultado duradouro, doses cavalares de remédios amargos.